cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O lado divertido dos filmes de terror

Nenhum gênero proporciona tanto aconchego e integra mais fisicamente e energeticamente as pessoas. Ao verem um filme assustador, principalmente se for à noite, as pessoas se aproximam no sofá, se tocam, escondem o rosto no ombro do outro. E na hora de dormir, principalmente quando somos crianças, tem aquele lance lúdico de um ir para a cama do outro, dormir junto. Sim, o terror agrega como quase todas as situações limite e estressantes.


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A boneca Annabelle

Muitas pessoas sentem medo só de ouvir falar em filme de terror. Outras mesmo temerosas adoram sentir um friozinho na barriga e se arriscam a ver um filme assustador com algumas precauções, como por exemplo, estar acompanhada ou ver durante o dia. Existem aqueles que acham graça e encaram cenas apavorantes como divertidas.

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Até que o Chuck de O brinquedo assassino tem o seu lado engraçado, não é? RS

E existe ainda um tipo muito instigante de espectador que está entre o que acha graça e o que sente medo. Vamos nos centrar neste tipo interessante que ao ver um filme de terror ou horror vai muito além do violento, do macabro e do misterioso.

Para a maioria das pessoas o melhor gênero de filme para relaxar é a comédia. As pessoas se sentem mais leves e descontraídas ao assistirem a cenas cômicas, principalmente quando se trata de um humor mais simples de entender com situações que beiram o ridículo. Não podemos confundir humor refinado, que questiona o status quo com pessoas escorregando em cascas de bananas e enfiando pés em vasos sanitários. Embora não seja totalmente impossível criticar o status quo por meio de uma cena que envolva um banheiro. Mas deixemos este tema para um outro post...

Voltando aos filmes de terror, faço parte deste restrito público bizarro que relaxa horrores vendo um filme de terror. Se estou muito tensa e tive um dia que ninguém merece, nada melhor para mim que um fantasma assombrando uma casa antiga ou meia dúzia de jovens sem noção fugindo de algum monstro esquisito num acampamento no meio do nada.

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Horror em Amityville

O terror nos deixa tensos e consequentemente ligados ao filme. Ficamos na expectativa o tempo todo e por duas horas damos uma pausa nos horrores da vida real. Particularmente, eu temo muito mais o meu contracheque e a linha vermelha do metrô do que a Samara de O chamado e a mimosa boneca Annabelle.

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O chamado

Outro aspecto interessante que vejo nos filmes de terror é a sensação de que o mundo está caindo lá fora e estamos seguros no sofá da sala ou na nossa cama. Vamos instruindo o personagem desesperado que foge do psicopata deformado, explicando para qual lado ele deve correr com a autoridade de um torcedor de futebol que se acha técnico, debaixo de um edredom bem fofinho. Nenhum gênero proporciona tanto aconchego e integra mais fisicamente e energeticamente as pessoas. Ao verem um filme assustador, principalmente se for à noite, as pessoas se aproximam no sofá, se tocam, escondem o rosto no ombro do outro. E na hora de dormir, principalmente quando somos crianças, tem aquele lance lúdico de um ir para a cama do outro, dormir junto. Sim, o terror agrega como quase todas as situações limite e estressantes.

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Cena de Poltergeist

Se no meio da exibição de um filme de terror bater uma porta ou estalar qualquer coisa, todos gemem, gritam ou riem simultaneamente, como se todos saíssem juntamente de um transe coletivo.

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O massacre da serra elétrica mostra, talvez, o mais assustador serial killer do cinema

Sem falar que nenhum outro gênero interage tanto com os seus espectadores de forma tão visceral e sensorial. O humor faz rir. O drama, chorar. Mas no terror, a gente não sente medo simplesmente. A pele arrepia, a energia fica baixa, os sentidos alerta , os músculos enrijecidos, as mãos trêmulas, a voz embargada , os olhos esbugalhados. E se tem algum engraçadinho de plantão por perto, é possível presenciar as cenas mais patéticas. Além de tudo isso, o terror abre a nossa mente para o misterioso, o insondável, o inexplicável, o bizarro, o grotesco. Por alguma razão que desconheço, temos certo fascínio pelo horrendo. Da mesma forma que o gelo queima de tão frio que ele é, o horrendo tem o seu charme tanto quanto o belo.

Por detrás do violento, do macabro, do misterioso, o fã de carteirinha dos filmes de terror enxerga as possibilidades múltiplas da vida , da mente humana , do que escapa à nossa racionalidade cartesiana. O terror é lúdico porque é onírico. Nele tudo é possível. Não existem barreiras entre vivos e mortos e absolutamente tudo pode acontecer nos salvando temporariamente da tediosa vida cotidiana. Sonhadores gostam de terror.

Dedico o atual post ao meu gentil aluno Fabiano Felipe, que sugeriu este tema tão lúdico e instigante!


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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