cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O que não conseguimos verbalizar vira lixo emocional

Aceitamos os personagens que nos dão e começamos a viver uma vida que não é a nossa. Calamos no fundo do peito um eu que muitas vezes nem sabemos que existe. De repente, do nada, um imprevisto, uma palavra mal colocada, uma situação limite nos faz trombar conosco mesmo, com aquele eu escondido. E de nossa boca começa a jorrar palavras ácidas com gosto de suco gástrico e mágoas antigas. Ofendemos pesadamente quem mais amamos. Ofendemos a nós mesmos.


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Cena de Um método perigoso, de David Cronenberg. A histérica Sabina é curada pela psicanálise e se torna psiquiatra.

A psicanálise, técnica desenvolvida por Freud e posteriormente ampliada por Lacan, visa curar os males emocionais por meio da fala.

A palavra já havia sido altamente reverenciada pela Bíblia quando se afirma que do verbo se fez a carne. Para os espíritas não devemos verbalizar pensamentos maldosos e sabemos o quanto uma palavra cruel na hora errada pode ferir mortalmente uma pessoa, destruir uma amizade, roubar a magia de um amor e criar um buraco na alma.

Como diria John Keaton, professor do filme Sociedade dos poetas mortos, palavras podem mudar o mundo sim. Se as palavras não fossem tão poderosas, os livros não seriam tão importantes.

No filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, por meio de uma distopia, fala-se sobre o poder revolucionário dos livros, como eles fazem pensar e como tal fato pode entristecer as pessoas.

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Cena de Fahrenheit 451

Por medo ou até mesmo por preguiça de entrar em conflitos, vamos calando muitas duras verdades em nosso peito. Vamos aceitando o inaceitável, perdoando crueldades disfarçadas de brincadeiras, absorvendo críticas injustas, incorporando o papel de vítima quando somos muito maltratados pela vida.

Aceitamos os personagens que nos dão e começamos a viver uma vida que não é a nossa. Calamos no fundo do peito um eu que muitas vezes nem sabemos que existe.

De repente, do nada, um imprevisto, uma palavra mal colocada, uma situação limite nos faz trombar conosco mesmo, com aquele eu escondido. E de nossa boca começa a jorrar palavras ácidas com gosto de suco gástrico e mágoas antigas. Ofendemos pesadamente quem mais amamos. Ofendemos a nós mesmos.

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Liv Ullmann em Sonata de outono de Bergman. A filha reprimida perde a compostura com a mãe egocêntrica. Bergman foi um mestre das obscuridades das relações familiares e das palavras não ditas que se acumulam no peito.

Não devemos calar palavras no peito. Não devemos permitir que elas virem mágoas mumificadas que um dia sairão de nós causando estragos homéricos.

É importante conversar sempre, por em debate saudável e cordial o que nos incomoda. O que não verbalizamos vira lixo emocional e um dia vem à tona com força total, completamente desgovernado.

É importante convidar a quem amamos para boas conversas francas e calmas. Não se discute relação apenas com namorado/namorada, marido/esposa. Discute-se relação com amigos , com parentes, com as pessoas importantes que fazem parte da nossa vida.

Acumular lixo emocional prejudica a saúde mental e às vezes até a física, em casos de somatização. A palavra presa no peito pode virar gastrite nervosa, perda de apetite, excesso de apetite, pode virar apatia.

Acumular lixo emocional deteriora as nossas relações, tira a qualidade de vida, nos faz nos perder de nós mesmos, cria muros invisíveis. Às vezes nos sentimos travados em relação a um ente querido e nem sabemos o porquê. Acumulamos tantas palavras no peito que chega um momento em que nem sabemos mais por que aquela relação se perdeu, esfriou, se encheu de lacunas e silêncios incômodos.

Por mais doloroso e cansativo que seja debater os conflitos, este exercício é necessário. É um tratamento preventivo para muitos males da alma. Não segure palavras no peito. Elas apodrecem o melhor das suas emoções e sentimentos. Elas apodrecem você mesmo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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