cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O suspense misógino de Hitchcock

Talvez nenhum recurso utilizado por Hitchcock tenha sido tão loquaz quanto a sua estética misógina.
As mulheres loiras são suas vítimas preferenciais.


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Sean Connery e Tippi Hedren em Marnie, confissões de uma ladra

Alfred Hitchcock ficou célebre como o mestre do suspense. Diferentemente de outros nomes importantes do cinema como Buñuel, Bergman e Fellini que se centraram respectivamente em criticar as instituições, promover uma profunda sondagem psicológica e devassar o mundo do espetáculo, colocando-o como única saída para a vida, Hitchcock se centrou na arte da catarse.

Se o cinema de Buñuel foi mais político, o de Bergman mais psicológico e o de Fellini mais metalinguístico, o de Hitchcock foi mais sensorial. Os primeiros foram mais do que cineastas. Eles foram filósofos. Hitchcock foi mais um esteta que utilizou como sua principal matéria-prima os nossos medos. Tais medos foram ressaltados por meio de alguns clichês estéticos que funcionavam muito bem.

Jogo de luz e sombras, trilhas sonoras angustiantes, personagens femininas com rostos gelidamente sexy, personagens masculinos ambíguos, longas expectativas e um mergulho nas fobias humanas.

Em Suspeita, quando o personagem de Cary Grant leva um copo de leite à sua esposa vivida por Joan Fontaine, não sabemos se ele está envenenado ou não. O copo parece iluminado conduzindo os nossos olhos para ele e aumentando a nossa ansiedade em relação à suspeita proposta pelo filme.

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Cary Grant em Suspeita

Em Marnie, confissões de uma ladra, a tempestade tinge o céu com a cor vermelha aos olhos do espectador que enxergam por meio dos olhos da atormentada Marnie.

Em Um corpo que cai, sentimos tontura quando o personagem protagonista interpretado por James Stewart sente vertigem ao subir numa pequena escada e se lembrar de um grave acidente.

E tanto em filmes coloridos como em preto e branco, Hitchcock trabalhava muito bem as cores ou a falta delas. Quando Marnie aparece pela primeira vez e de costas , usando cabelos negros e segurando uma bolsa amarela , as cores gritam.

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Tippi Hedren como a perigosa e atormentada Marnie

Em Um corpo que cai, o jogo de cores de Madelaine nos remete realmente a pintura que ela tanto observa no museu e Jodie com sua maquiagem exagerada e roupas vulgares nos arrasta para um mundo cruelmente real, bem diferente dos tons pasteis e etéreos que circundam a misteriosa , angelical e inacessível Madelaine.

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Kim Novak como Madelaine

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Madelaine aparece como um lindo sonho para o detetive aposentado John

Mas talvez nenhum recurso utilizado por Hitchcock tenha sido tão loquaz quanto a sua estética misógina. As mulheres loiras são suas vítimas preferenciais. Em Os pássaros, a professora atraente e morena vivida por Suzanna Pleshette morre no meio da escada da sua casa, atacada por pássaros. Sua morte é violenta, porém, rápida. Por outro lado, Melanie, a personagem vivida por Tippi Hedren passa horrores nos bicos das aves e nas mãos do diretor.

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Tippi Hedren como Melanie

Marion de Psicose, a desafortunada secretária que passa a noite no hotel de Norman Bates depois de roubar uma grande quantia em dinheiro também é uma loira. De seios fartos, a atriz vive uma personagem que abre o filme fazendo sexo com um homem que não é o seu marido. Depois rouba a empresa onde trabalha para poder se casar com ele. Ela se arrepende e decide voltar atrás, mas Norman Bates a assassina. Mais do que isso. Ele a assassina no chuveiro. Norman Bates esfaqueia uma mulher nua. Enfim, a mulher sexy, impulsiva, que se entrega ao amor e comete um delito por ele, é punida mesmo estando arrependida.

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Janet Leigh como Marion

O mesmo ocorre com Jodie de Um corpo que cai. Não importa o quanto ela esteja arrependida. A linda loira é castigada por suas mentiras e principalmente por sua sedução.

Marnie tem um final mais leve e feliz, mas passa todo o filme angustiada e acuada , morrendo de medo de ser tocada pelo personagem de Sean Connery, o que provocou risos na atriz Tippi Hedren nos bastidores.

Em uma cena marcante do filme, o personagem vivido por Sean Connery puxa o robe da esposa e a vê desnudada e catatônica, ressaltando a sensualidade feminina como uma faca de dois gumes: o que as tornam tão poderosas também as tornam altamente vulneráveis.

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Marnie tenta se afogar para fugir do marido

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A paixão de Marnie por cavalos, possivelmente, é uma simbologia da sua natureza indomável, selvagem e frágil simultaneamente

Em Janela indiscreta, a loira da vez é Lisa Carol, vivida pela inacreditavelmente linda Grace Kelly. Ela não chega a ser uma vítima, mas se coloca em risco para ajudar o homem amado a desvendar um mistério. A delicada, rica e belíssima jovem que poderia exigir do namorado um mar de atenções e mimos, se coloca diante do personagem de James Stewart de forma servil.

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Cena de Janela indiscreta: voyeurismo levado às últimas consequências

Em Frenesi, penúltimo filme de Hitchcock, uma homem impotente assassina mulheres loiras, estrangulando-as com uma gravata. Como ele não consegue saciar o desejo que sente por elas, as assassina, fazendo uma forte referência a Psicose. Norman Bates é um impotente no sentido emocional. Como ele não consegue lidar com o desejo despertado por Marion, ele a assassina, extravasando o erotismo reprimido com violência.

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Frenesi

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Frenesi

Entrar no universo de Hitchcock é mergulhar num mundo de desejos reprimidos e muito temor da sexualidade. Falsamente castos, seus filmes apresentam uma carga erótica brutal e perversa, em que as belas loiras encarnam simultaneamente o papel de vítimas e de transgressoras que devem ser podadas e punidas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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