cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Os limites éticos da crítica artística

Entro num museu de arte e nada entendo de pinturas. Me aproximo de uma tela e vejo somente um borrão sem significado para mim. De repente, alguém que conhece bem pintura chega perto de mim e afirma que o borrão possivelmente representa o sentimento de dúvida e desespero que assolou o artista que viveu durante uma guerra. Entendem o que quero dizer?
O borrão se torna melancolia para mim. O borrão se torna poesia , busca febril, se torna arte e eu passo a ver e a sentir detalhes que me passavam despercebidos.


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O filme Caminhando nas nuvens foi severamente criticado por um renomado profissional que não o assistiu e que provavelmente pegou carona em outras críticas que não perdoaram Alfonso Arau por ter feito um filme comercial

Sabemos o quanto é importante a função social de analisar obras artísticas para o público em geral. Da mesma forma que cicerones em museus proporcionam mais significado às nossas visitas, jogando luz sobre quadros e esculturas que não compreenderíamos tão profundamente sem a ajuda de um profissional especializado, críticos literários, cinematográficos, teatrais e de outras artes, incluindo a culinária, têm a importante missão de nos pegar pela mão e nos conduzir nos intricados caminhos da arte.

Infelizmente, muitos profissionais da área confundem análise técnica, profunda, detalhista com oportunidades de extravasar frustrações. Muita gente critica impiedosamente o trabalho dos outros, mas nunca tentou escrever um livro, pintar um quadro, montar uma peça, rodar um filme etc . O simples fato de uma pessoa ter coragem e disposição para empreender já deveria ser valorizado.

Obviamente, um crítico não deve elogiar uma obra que ele odiou só para ser gentil. Defeitos precisam ser levantados sim, principalmente os que reforçam preconceitos e estereótipos como muitos filmes do cinema comercial reforçam. Por outro lado, é essencial criticar com respeito e apontar o que há de bom também.

A palavra crítica está ganhando o sentido pejorativo de detonar, falar mal, desnudar as falhas. Sendo que crítica se relaciona à análise técnica, profunda, séria, consistente, baseada em conhecimento e experiência específica.

Como detonar um livro ou um filme que muitas vezes o crítico nem leu ou assistiu até o final? Como desconstruir de forma cruel e desrespeitosa uma obra que muitas vezes levou meses ou anos para ser produzida? Muita gente faz dívidas, vende o carro, abala o casamento para fazer um filme ou montar um espetáculo teatral. Muita gente pega todas as economias que tem para gravar um CD , publicar um livro, investir em divulgação e distribuição. Com que direito alguém que nunca escreveu, gravou ou produziu desmonta o trabalho árduo de outras pessoas que investiram tempo, energia, dinheiro?

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Cena do filme argentino O crítico. O protagonista extravasa seu mau humor detonando os filmes alheios. O filme peca um pouco pelo ritmo, mas aborda um tema essencial: o limite ético das críticas

Muito mais do que um detector de falhas, o crítico deveria ser uma espécie de orientador que pega o público pela mão e o ajuda a ver, ouvir e perceber coisas que exigem um conhecimento técnico mais profundo.

Além de mostrar possíveis falhas e desnudar com respeito olhares rasos a respeito da realidade, o crítico deveria jogar luz sobre aspectos obscuros da obra, revelando sentidos e significados, traduzindo imagens e metáforas em emoções e impressões.

Por exemplo: entro num museu de arte e nada entendo de pinturas. Me aproximo de uma tela e vejo somente um borrão sem significado para mim. De repente, alguém que conhece bem pintura chega perto de mim e afirma que o borrão possivelmente representa o sentimento de dúvida e desespero que assolou o artista que viveu durante uma guerra. Entendem o que quero dizer?

O borrão se torna melancolia para mim. O borrão se torna poesia , busca febril, se torna arte e eu passo a ver e a sentir detalhes que me passavam despercebidos.

Se vejo um filme de arte, mas não compreendo sobre arte pois só vi filmes comerciais na vida, posso estranhar e me chocar com certas cenas. Quantas pessoas ainda não afirmam veementemente que Último tango em Paris é um filme pornográfico? Quantas pessoas não ficariam furiosas assistindo a Saló de Pasolini?

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Saló ou 120 dias em Sodoma possivelmente é mal interpretado até hoje. Pasolini utilizou a obra do Marquês de Sade para fazer um retrato da Itália fascista

Por outro lado, quantas pessoas não acreditam que um filme comercial é necessariamente ruim? Ser comercial não é o mesmo que ser ruim. Existem bons e maus filmes tanto comerciais como de arte. Existem aqueles também que não são nem comerciais nem de arte. Enfim, analisar arte é coisa séria. É trabalho pra gente responsável, dedicada, que deseja agregar valor.

Uma crítica bem feita é quase uma segunda obra de arte. É um convite a conhecermos mais, a entendermos melhor, a vermos com os olhos da alma e a nos abrirmos para possibilidades múltiplas.

O bom crítico é generoso, exigente, lúcido. O bom crítico é um pouco artista, um pouco professor , um pouco confidente pois compartilha suas dores e seus prazeres. Compartilha o seu olhar sobre o mundo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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