cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Os tênues limites entre o politicamente correto e o constrangimento

O politicamente correto defende grupos, mas não nos torna mais gentis, educados e tolerantes. Não podemos questionar um tabu ou reverenciar um filme irreverente. Mas os defensores do politicamente correto não se constrangem em ofender e agredir indivíduos, como se apenas a dignidade dos grupos precisasse ser preservada, nunca a das pessoas separadamente.


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Os limites entre determinadas situações, sentimentos e características são bem tênues e às vezes fica complicado definir exatamente se uma pessoa é determinada ou teimosa, altruísta ou manipuladora, sexy ou vulgar, extrovertida ou espalhafatosa, amante ou carente. O mesmo pode se dizer a respeito do politicamente correto e da censura. O mesmo pode se dizer também da liberdade de expressão e da prática abusiva de se falar o que bem se entende sem nenhum tipo de filtro.

Para evitar piadas e comentários abusivos que ferem as pessoas em sua dignidade, surgiu o politicamente correto nos mais variados setores da sociedade. O humor não deve pregar nenhum tipo de preconceito. Os professores devem evitar brincadeiras que constranjam os alunos. Os profissionais da mídia precisam pesar e medir palavras cuidadosamente.

O politicamente correto em si é positivo. É um freio para línguas muito ferinas e descontroladas. Por outro lado, como o ser humano tende a pular de um extremo ao outro, surgiu a ditadura do politicamente correto e atualmente somos patrulhados constantemente e se qualquer uma de nossas palavras escritas ou orais ferir mesmo que muito levemente qualquer suscetibilidade, prepare-se para as represálias.

Algumas pessoas se sentem seriamente ofendidas e incomodadas quando escutam um palavrão, mesmo que ele seja pronunciado em tom de brincadeira. Outras pessoas se sentem realmente humilhadas e agredidas diante de uma piada sobre mulheres, como se o autor da piada e quem a conta tivessem real interesse em magoar.

Assumir que gosta de filme bizarro e escrever uma resenha sobre um filme com elementos grotescos pode render uma saraivada de comentários indignados.

Tocar em temas tabu com seriedade e franqueza é outro “crime” passível de severas críticas, que incluem ofensas à sua vida pessoal. Tocar em um assunto de forma genérica é algo condenável, mas ofender diretamente uma pessoa desconhecida é normal.

O politicamente correto defende grupos, mas não nos torna mais gentis, educados e tolerantes. Não podemos questionar um tabu ou reverenciar um filme irreverente. Mas os defensores do politicamente correto não se constrangem em ofender e agredir indivíduos, como se apenas a dignidade dos grupos precisasse ser preservada, nunca a das pessoas separadamente.

O politicamente correto não considera o individual e muitas vezes ignora também o contexto explicitado. Dependendo do contexto, do tom de voz, uma piada pode ser considerada muito maldosa. Dependendo do contexto e do tom de voz, pode ser apenas uma brincadeira mesmo.

Hoje em dia, parece um pecado mortal ou crime passível de pena de morte, transmitir uma opinião que diverge da maioria ou de algum grupo poderoso na sociedade.

Um professor não pode dizer que gosta de um livro ou filme comercial. Uma pessoa não pode questionar se é realmente possível conciliar uma carreira muito exigente com maternidade. As piadas precisam ser assépticas. Um intelectual pode ser cruelmente agredido se admitir fé religiosa em ambientes mais acadêmicos. Um ateu pode ser severamente excluído se admitir não ter fé num ambiente mais espiritualizado.

Se alguém admite ter uma visão mais pessimista sobre a vida, é desprezado. Fazer brincadeiras sobre sexo pode taxá-lo como um pervertido e gostar de arte pode excluí-lo socialmente.

Enfim, vivemos uma pseudo liberdade, em que teoricamente, podemos dizer tudo e nos expressar à vontade. Mas se revelarmos o nosso lado B, expondo gostos e padrões menos convencionais ou expressando um humor mais irreverente, as consequências virão num piscar de olhos.

Dedico o atual texto ao meu polêmico aluno Filipe Aparecido, que sugeriu este tema altamente contemporâneo e instigante!


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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