cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Pássaro branco na nevasca: quando nos perdemos de nós mesmos

Pássaro branco na nevasca guarda muitos segredos e mergulha em questões muito delicadas: a invisibilidade das donas de casa, a amargura por ter vivido uma vida inexpressiva , o desejo sexual se sobrepondo ao amor, o inferno de viver mergulhado na dúvida.


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Recentemente, vi um filme do cinema independente americano que muito me agradou. O cinema independente americano tem verdadeiras pérolas. Seu estilo é brutal. Os diretores não douram a pílula e a vida é mostrada como ela é, como a um quadro sem retoques, com camadas mais grossas de tinta, sob a impiedosa luz da verdade. O filme é de 2014 e foi dirigido por Gregg Araki.

A trama gira em torno do desaparecimento de uma linda e esmagada dona de casa interpretada pela atriz francesa Eva Green, que ficou internacionalmente conhecida por viver a visceral Isabelle de Os sonhadores, do italiano Bernardo Bertolucci.

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Eva Green como Isabelle de Os sonhadores

Uma mulher magnética, cheia de sonhos e energia, se casa com um homem comum. Torna-se uma primorosa dona de casa, transformando em arte os afazeres cotidianos. Mas o tempo passa e todo aquele afeto dispensado nos cuidados da casa começa a pesar nos ombros daquela mulher que se torna um pássaro branco na nevasca. Antes mesmo de desaparecer, ela já havia sumido para ela mesma dentro de uma vida que ela considerava medíocre demais para ser designada como infernal.

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Muitas vezes não nos reconhecemos quando nos olhamos no espelho

Sua filha adolescente e cheia de apetite sexual vivida por Shailene Woodley, atriz dos filmes Divergente e A culpa é das estrelas, aceita o sumiço da mãe com tranquilidade, pelo menos aparentemente. Para a garota o desaparecimento da mãe faz sentido pois ela sempre ou quase sempre considerou o marido um zero à esquerda.

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Eva Green interpreta uma mulher que ainda deseja loucamente

Pássaro branco na nevasca guarda muitos segredos e mergulha em questões muito delicadas: a invisibilidade das donas de casa, a amargura por ter vivido uma vida inexpressiva , o desejo sexual se sobrepondo ao amor, o inferno de viver mergulhado na dúvida. O desfecho do filme é um pouco didático demais. Acredito que menos explicações tornariam o filme ainda mais instigante. Porém, de qualquer forma , é uma obra que marca, que impressiona, que fica na cabeça martelando e pedindo “Fale sobre mim!”.

O branco assume uma conotação misteriosa no filme, entrando num estado de simbiose com a figura materna, quase etérea de tão inatingível, com as doces lembranças de uma infância feliz e com o próprio sentimento de dúvida que assola a jovem protagonista. O branco é a somatória de todas as cores e pode ser encarada também como a junção de todas as possibilidades da vida que se embolam.

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A mãe afetuosa começa a invejar a juventude e as possibilidades da filha

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Se o cinema comercial americano se esforça para manter a nossa alegria ignorante, o independente nos revela a realidade de forma impiedosa. Cabe a cada espectador escolher o que deseja saber ou o que prefere deixar como um pássaro branco na nevasca.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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