cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre a arte de degustar a vida

É preciso demorar-se nos momentos, nas sensações, prolongar o prazer, retardar o êxtase, se deliciar com a espera, com o meio, com o processo.


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Vivemos em tempos frenéticos. As pessoas não largam o smartphone nem na escada rolante do metrô. Mil informações verbais, visuais e sonoras. Reflexões parciais e bem fragmentadas. Milhares de pessoas engolem seu almoço andando pelas ruas, esperando o próximo vagão do metrô ou na frente do computador. E entre uma mordida e outra , um e-mail respondido, um SMS enviado, uma planilha revisada. Cachorros-quentes e salgados substituem refeições completas. No lugar da mesa arrumada , da família ou colegas de trabalho reunidos, centenas de desconhecidos passando de um lado para o outro.

Somos tão ansiosos que mesmo quando temos a oportunidade de nos sentarmos diante de uma mesa bem posta, com comida caseira e fumegante, aproveitamos pouco as nossas refeições. Mastigamos rapidamente, com pressa, como se a comida fosse fugir ou pior ainda: como se fosse perda de tempo degustar a refeição calmamente. Conclusão: reduzimos o tempo de prazer e engordamos porque comemos mais.

Mas não engolimos apenas a comida. Engolimos as informações, as relações, o tempo livre. Não nos debruçamos mais buliçosamente sobre um livro, não paramos mais para refletir longamente sobre a vida e mal temos tempo para uma conversa mais densa com um amigo.

Zapeamos e engolimos poucos instantes de cada programa e no decorrer da vida formamos um mosaico de amizades, pois quando a relação começa a ficar profunda demais, exigente demais, partimos para outra.

Preferimos resumos aos livros completos. Sentimos sono ouvindo música clássica. Um bombom apenas não basta. Nem um simples copo de cerveja. Comemos, bebemos, falamos, sentimos tudo muito apressadamente e intensamente como um fogo de palha que promete destruições mil mas é breve demais para incendiar a alma. E da mesma forma que devoramos a comida, devoramos os saberes, mas sem absorvê-los, sem compreendê-los. Apenas nos enfastiamos e nos inchamos de informações inúteis.

Precisamos aprender a saborear as palavras, os momentos, as pessoas como quem deglute um doce vinho lentamente, deixando a bebida entranhar em toda a boca. Como deixamos derreter um pequeno chocolate debaixo da língua até seu gosto ficar impregnado. Precisamos ouvir mais antes de falar. Acalmar a respiração. Sentir o gosto da comida. Sentir o frescor do banho e ler duas ou três vezes o mesmo parágrafo só pela alegria de entender melhor uma ideia aparentemente muito complicada.

É preciso demorar-se nos momentos, nas sensações, prolongar o prazer, retardar o êxtase, se deliciar com a espera, com o meio, com o processo.

É preciso degustar a vida como quem prova uma rica iguaria, pois a vida é única e mesmo o seu lado trágico tem a sua poesia. E nenhuma poesia que se preze pode ser realmente absorvida no estilo fast-food da nossa rotina.

Dedico o atual texto à minha aluna e muito amada amiga Lira Dicetaro, que muito me ensinou sobre as mais variadas poesias.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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