cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre cinema, grandes escolhas e a busca do eu verdadeiro

Deveríamos ser estimulados a fazer psicanálise desde cedo e não quando estamos no fundo do poço. Deveríamos ser estimulados a entender melhor os nossos sentimentos e quem realmente somos, a fim de encontramos o nosso lugar no mundo.


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Se fôssemos estimulados a pensar criticamente desde a infância e a mergulhar dentro de nós, nossas vidas teriam muito mais sentido

Cada pessoa tem suas estratégias de sobrevivência e busca pelo autoconhecimento. Dos tipos de inteligência catalogados , a intrapessoal é a que apresenta menos possuidores.

Tudo conspira para não nos conhecermos: a família, a escola, a igreja, a sociedade de um modo geral. Obviamente, existem famílias mais liberais e escolas mais libertárias, mas na maioria dos casos somos impelidos a fazer o que deve ser feito, sem grandes questionamentos, como se determinadas ações fossem naturais e fugir delas fosse anormal. Nossos gostos e escolhas são sugestionados e imaginamos querer ou rejeitar um caminho por imposição daquilo que aprendemos ou daquilo que nos permitem aprender.

Deveríamos ser estimulados a fazer psicanálise desde cedo e não quando estamos no fundo do poço. Deveríamos ser estimulados a entender melhor os nossos sentimentos e quem realmente somos, a fim de encontramos o nosso lugar no mundo. As escolas deveriam oferecer palestras e atividades que convidassem as crianças e jovens a mergulharem dentro de si. O processo educacional deveria considerar mais a individualidade. E quando me refiro a processo educacional, falo da escola e da família, que conjuntamente preparam a criança para atuar no mundo.

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Somos preparados para cumprir leis de mercado, mas não para cumprir as nossas aspirações. Não é à toa que esbarramos em tantas pessoas inteligentes, cheias de habilidades, mas que se desconhecem quase que completamente, que imaginam querer coisas que na verdade a sociedade, o grupo de amigos ou os pais desejam. Que imaginam ser aptas ou inaptas para tarefas que ela acolheu ou abandonou porque outras pessoas a motivaram num sentido ou em outro.

Os artistas e filósofos têm uma tendência para abstrair, refletir, mergulhar dentro de si. É um processo quase orgânico. Mas a maioria das pessoas precisa de um estímulo a mais para olharem sistematicamente para dentro de si. Infelizmente a sociedade rejeita o pensamento abstrato e tudo aquilo que num primeiro momento não seja absolutamente útil para fazer a manutenção dos valores mercantilistas da sociedade.

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Se as pessoas se analisassem mais, não ouviríamos com tanta frequência frases do gênero: “Todo mundo faz”, “Eu fiz o que me ensinaram”, “Eu segui o caminho dos meus pais”, “ Fiz ou deixei de fazer algo por culpa da sociedade que é muito preconceituosa”, “Segui tal carreira porque me disseram que era melhor”.

Não se conhecer é o caminho mais curto para atribuirmos ao outro a responsabilidade das nossas escolhas. Vamos analisar frase a frase?

Todo mundo faz. Ok. Se todo mundo começar a enfiar a cabeça no vaso sanitário, você também enfiará? Você é você . Você não é todo mundo. Devemos falar em primeira pessoa.

Eu fiz o que me ensinaram. Ok. É natural seguirmos os caminhos indicados e muitas vezes eles são realmente ótimos. Mas antes de dizer sim ou não, temos o dever de analisar o que é melhor para nós. O mesmo vale para a frase “Eu segui o caminho dos meus pais”. Fiz ou deixei de fazer algo por culpa da sociedade que é muito preconceituosa. Ok. A sociedade é realmente muito preconceituosa, mas deixar de viver a sua vida tornará a sociedade cada vez mais preconceituosa. E no final das contas, não é a sociedade que paga as nossas contas? “Segui tal carreira porque me disseram que era melhor”. Quem precisará passar anos exercendo aquela profissão não é a pessoa que disse que aquela carreira era a melhor. É você.~

Creio que esta falta de incentivo ao autoconhecimento está relacionada à necessidade de mantermos as pessoas na linha, fazendo ou deixando de fazer o que é mais produtivo para a sociedade, mais conveniente para todos os tipos de poder.

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Formamos uma sociedade de frustrados. Gays fazem casamentos heterossexuais, filhos seguem carreiras dos pais sem vocação, pessoas têm filhos mecanicamente, estudantes escolhem carreiras pensando apenas no aspecto financeiro, escolas preparam para a mesmice e faculdades para o mercado. E no final das contas, tudo gira em torno do ter e aparentar, esmagando o ser, sentir e pensar sem dó nem piedade

Não é à toa que a maioria das pessoas passa a vida sem descobrir a sua vocação. Não é à toa que muitas pessoas vivem casamentos desastrosos, possuem relações dificílimas com seus entes mais queridos. Não é à toa, que muitas vezes não conhecem a si mesmas e lutam desesperadamente por tudo aquilo que as fará mais infelizes. Projetamos nossos medos nos outros . Agredimos gratuitamente para esbofetear as nossas culpas. Nos fechamos para o amor porque nos ensinaram que o amor é doloroso. Nos acostumamos com o intolerável porque nos disseram que ser humilhado faz parte da vida. Enterramos os nossos sonhos, os nossos projetos missionários, a nossa inventividade, o nosso gosto por correr riscos, a nossa alegria infantil porque nos ensinaram que adultos são tristes, não sonham nem acreditam.

O tamanho das nossas escolhas e a intensidade da nossa vida estão diretamente relacionadas ao quanto sabemos sobre nós. Quanto mais sabemos, maiores serão as escolhas e mais plenas serão as experiências. Existem muitos meios para se entender melhor. Neste post falarei sobre um que me agrada muito : o cinema. Mas não estou falando de filme comercial.

Estou falando de cinema que vai fundo, que nos tortura emocionalmente, que puxa pelo pé a criança medrosa que mora dentro de nós, que expande as asas do sonhador que dorme em nosso coração. Falo de filmes que jogam na nossa cara sem dó nem piedade a vida sob os seus mais variados e loucos ângulos, que nos bota nus, demaquilados, em transe, que enfiam uma adaga em nosso peito enquanto sorriem sedutoramente. Falo de filmes que nos levam para cama, que nos puxam pelo cabelo e nos botam contra a parede.

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Tempos modernos de Chaplin questionava ferozmente a alienação da vida dos operários e como o povo é tratado como uma massa sem nome

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O filme belga Dois dias, uma noite, entre outros temas, mostra a humilhação pela qual as pessoas passam para manter o seu emprego

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Pássaro branco na nevasca mergulha no lado B das relações familiares

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Pequena Miss Sunshine critica o American way of life e questiona o conceito de sucesso

Falo de filmes que nos fazem correr como ratinhos alucinados pelos labirintos da alma. Aí, não tem jeito. Mesmo que não queiramos ver, mesmo que não queiramos entender, nossas verdades correm todas aos nosso encontro, ofegantes, aos borbotões, sorrindo, chorando, esperneando. Aí, temos que nos enxergar por meio dos personagens. Aí, temos que assumir que precisamos ser nós mesmos.

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Desconstruindo Harry, de Woody Allen. Ver a um filme de Allen é quase sempre receber uma aula sobre o ridículo do dia a dia social

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O doador de memórias. Por meio de uma distopia, refletimos sobre os mecanismos da nossa sociedade

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Os sonhadores, de Bertolucci mergulha na realidade de dois jovens que temem o mundo e se defendem dele por meio do onírico

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Refúgio do medo questiona os limites entre sanidade e loucura.

Ao voltar de uma tarde muito agradável de namoro há séculos, revi pela milésima vez um filme que muito me agrada : O morro dos ventos uivantes, com a Juliette Binoche e o Ralph Fiennes. Assistindo ao filme, a boa sensação da tarde se dissipou pois ele me jogou na cara o que eu já sabia e me recusava a admitir: eu gostava do meu namorado, mas não o amava.

Sim, o cinema, o bom cinema, não bota panos quentes nem doura a pílula. Sim, ele nos induz a assumir a responsabilidade sobre nossas escolhas e nossa vida. Deixamos de ser meras vítimas das circunstâncias, coadjuvantes passivos arrastados pelo senso comum da vida.

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Saló ou 120 dias em Sodoma, de Pasolini. Por meio da obra do Marquês de Sade, o cineasta italiano retratou a sociedade fascista

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Meu tio, de Jacques Tati. Uma poética crítica à sociedade de consumo.

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Quem tem medo de Virginia Woolf? mergulha na rede de mentiras construída na vida a dois.

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A comilança, de Marco Ferreri: estilo bizarro e escatológico denunciam o enfado e o vazio da sociedade de consumo

Quem mergulha no mundo do bom cinema , mergulha na mais profunda e dilacerante realidade. Depois dele, não podemos mais alegar desconhecimento das regras.

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Estômago, de Marcos Jorge. Relações fortes e violentas entre comida e poder

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O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia. A arbitrariedade do poder.

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Miss Julie, de Liv Ullmann, baseado na peça de August Strindberg. O abismo entre classes e a incomunicabilidade entre homens e mulheres


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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