cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Três corações e a delicadeza do cinema francês para falar dos dramas da alma e do amor

Quando o assunto é mergulhar no lado B das relações e nas nuances do amor, os cineastas franceses dão uma aula de sensibilidade. Eles fogem dos estereótipos do cinema comercial e normalmente conseguem ser emotivos sem serem dramáticos demais, no sentido caricato da palavra. Mesclam erotismo, melancolia, existencialismo, vida cotidiana e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.


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Quanto mais fortes são as relações familiares, mais frágeis elas se tornam

Cada país tem mais facilidade para lidar com determinados temas e gêneros. Quando busco filmes de suspense e terror para assistir, dou preferência aos americanos. Em relação aos de terror, tenho uma especificidade a mais: prefiro os realizados nos anos 1970 e 1980. Normalmente são menos sangrentos e mais imaginativos.

Quando busco uma comédia, prefiro as inglesas com o seu humor cáustico e inteligente. Ninguém escorrega em cascas de banana ou cai de bumbum no chão. Aprecio dramas de variados países da Europa, Ásia e América Latina. Gosto dos dramas do cinema independente americano também. Os italianos são muito emotivos. Os espanhóis passionais. Os argentinos poéticos e mordazes ao mesmo tempo. Os ingleses e alemães objetivos e realistas. Os chineses e japoneses hipnóticos e altamente simbólicos. Os franceses, melancólicos e profundos.

Quando o assunto é mergulhar no lado B das relações e nas nuances do amor, os cineastas franceses dão uma aula de sensibilidade. Eles fogem dos estereótipos do cinema comercial e normalmente conseguem ser emotivos sem serem dramáticos demais, no sentido caricato da palavra. Mesclam erotismo, melancolia, existencialismo, vida cotidiana e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.

Três corações , coprodução da França, Alemanha e Bélgica, produzido em 2014 por Benoit Jacquot conta uma história simples e triste. Primeiro, um desencontro aborta o desenvolvimento de um sentimento que surgiu espontaneamente. Em segundo lugar, uma infeliz coincidência desestrutura uma família unida, transformando a todos em vítimas das circunstâncias. A amante não é uma fêmea fatal, destruidora de lares. O adúltero não é nenhum canalha. Nem a esposa traída é uma megera. Personagens frágeis, românticos , perdidos caminham e se desencontram neste filme sobre o peso daquilo que não aconteceu.

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Charlotte Gainsbourg como Sylvie: vítima do acaso e algoz de quem ela mais ama

Inclusive a cena final é uma bela homenagem a tudo que poderia ter acontecido e fluído de forma maravilhosa se um incidente não tivesse desordenado tudo. O cinema europeu trabalha a questão do acaso de forma bem peculiar e até mesmo antagônica aos filmes comerciais. Se em comédias românticas, muitas vezes, o acaso é o grande lance de sorte dos personagens, nos europeus, normalmente, são o que distanciam as pessoas de seus desejados caminhos, levando-as a uma vida sem brilho. O caráter banal da vida de Marc, personagem vivido, por Benoit Poelvoord, fica bem explícito quando Sylvie pergunta por que ele escolheu Sophie, vivida por Chiara Mastroianni e ele responde que não escolheu.

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Os personagens de Charlotte Gainsbourg e Benoit Poelvoord vivem um dos dramas mais tristes na vida real: o drama do se

Uma das cenas mais belas é quando o casal de amantes se enlaça à beira da estrada e o gestual de Sylvie parece lutar com o seu próprio desejo por meio do embate que trava com o homem amado. Ela quer e não quer. Outra cena interessante é quando a mesma Sylvie desesperada foge de seu quarto e da possibilidade de um flagrante que colocará em risco a felicidade familiar à moda Fanny Ardant em A mulher do lado, de François Truffaut.

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Benoit Poelvoord e Chiara Mastroianni vivem o casal possível. Estão muito longe daquilo que poderia ser

Com linguagem simples e ambientado em uma cidade do interior da França, com algumas cenas em Paris, o filme conta com nomes de peso: Benoit Poelvoord, Catherine Deneuve como mãe da personagem de Chiara Mastroianni ( sua filha na vida real) e da personagem de Charlotte Gainsbourg , a protagonista dos polêmicos e extremamente profundos Ninfomaníaca e Anticristo, ambos de Lars Von Trier.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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