cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

A rendição como liberdade suprema

Talvez a felicidade verdadeira seja isso mesmo: um riso compartilhado, uma cerveja gelada num dia quente, a certeza de que apesar dos pesares se amou um dia com sinceridade. Talvez a felicidade esteja na leitura de um bom livro regada a um chocolate quente com canela. Talvez a felicidade esteja numa brincadeira entre amigos, num olhar de cumplicidade. Talvez a felicidade não seja nada demais nem grandiosa como imaginamos.


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Muitos imaginam a liberdade como a possibilidade de se fazer o que se deseja. De viver de acordo com as próprias aspirações, assumindo para si mesmo e para os outros o seu eu mais verdadeiro demaquilado.

Para outros a liberdade vai além de realizar desejos e se viver como se bem entende. A liberdade é o desprendimento do próprio desejo. É diminuir a ansiedade em relação ao que se quer. É querer com mais calma, com mais doçura. É querer sem prender. É querer sem impor. É querer sem se desesperar. Colocando num Português mais direto, é o famoso deixar rolar. É o famoso se acontecer, aconteceu.

É esperar menos de si mesmo. É esperar menos dos outros. É esperar menos da vida. É esperar menos pelo emprego ideal, a viagem dos sonhos, o parceiro "perfeito". É aprender a usufruir daquilo que a vida oferece. Num célebre filme do diretor inglês David Lean intitulado Quando floresce o coração, uma secretária americana e solitária viaja a Veneza em busca do romance ideal. Mas encontra um homem separado, que a deseja profundamente. Ela hesita diante do desejo dele e do desejo dela pois imaginou um tipo de situação ideal. A realidade fugia ao seu controle e entendimento. Numa das cenas mais realisticamente belas de amor ele afirma que ela parecia uma menina mimada pois sonhou com um filé, mas a vida estava lhe oferecendo um prato de ravióli.

Sim, nem sempre é possível viver um romance nas condições ideais ou fazer a viagem dos sonhos. Nem sempre é possível arranjar o emprego perfeito. Mas talvez seja possível transformar a realidade no melhor possível. Talvez seja possível viver com verdade e intensidade ao lado de pessoas que nos valorizam e nos aceitam como somos. Talvez seja possível extrair prazer e alegria dos momentos mais banais e comezinhos.

Talvez a felicidade verdadeira seja isso mesmo: um riso compartilhado, uma cerveja gelada num dia quente, a certeza de que apesar dos pesares se amou um dia com sinceridade. Talvez a felicidade esteja na leitura de um bom livro regada a um chocolate quente com canela. Talvez a felicidade esteja numa brincadeira entre amigos, num olhar de cumplicidade. Talvez a felicidade não seja nada demais nem grandiosa como imaginamos.

Tomando um banho de chuva depois de uma cerveja numa sexta à noite, não me importei de ficar molhada da cabeça aos pés. Talvez esta imagem seja o ícone da liberdade. Caminhar debaixo de chuva forte sem se importar. Sem pensar que vai ficar gripada. Sem pensar que os cabelos estão desarrumados, o rímel borrado. Caminhando sem pressa de chegar, sem tristeza por partir. Caminhando ao sabor do ritmo do mundo. Caminhando como alguém que está de passagem.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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