cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A semiótica do poder

Ter um gosto raro ou diferente não deveria significar estar errado. Tentar enquadrar todo mundo no mesmo esquemão tem gerado muita ansiedade, depressão, transtornos alimentares, angústia e falta de perspectiva.


executivo_com_perfil_global1.jpg

Normalmente estudantes de Comunicação Social tremem e suam frio só de ouvirem a palavra Semiótica. Mas depois de algumas explicações e exemplos, a maioria percebe que apesar da complexidade do tema, a Semiótica não é uma ciência distante ou abstrata. Muito pelo contrário. Ela está arraigada ao nosso cotidiano mais comezinho. Inclusive , uma de suas vertentes, a Semiótica da Cultura ou russa, investiga os valores, costumes e crenças das mais variadas culturas, tendo como ponto de partida que toda cultura nada mais é que um conjunto de códigos comunicacionais.

Se arrotar à mesa é indício de satisfação na China, no Brasil é gafe feia. O mesmo gesto tem significados diferentes dependendo da cultura. Se o arroto é índice de boa educação para os chineses, para nós é o índice da falta. Isto é , não existe uma relação natural entre arroto com boa ou má educação. Depende da leitura de cada cultura. O que quero dizer com isso? Que costumes são convenções. E se foram convencionados , eles podem ser revistos e repensados.

Dizer que excesso de alimentos ricos em colesterol faz mal não pode ser considerado uma convenção. É um dado objetivo conquistado por meio de pesquisas científicas. Agora dizer que existe uma fórmula para ser feliz linear e igual a todos é uma convenção social. Dizer que casamento de verdade é apenas entre heterossexuais e que um casamento precisa gerar necessariamente filhos são convenções. Dizer que todo mundo precisa fazer uma faculdade após sair da escola é convenção. Dizer que existe um modo único de se realizar, de sentir prazer , de entender o mundo são convenções. Não existe fé verdadeira. Toda fé é válida. A falta dela também é. Não existe modelo familiar único. Não existe um único jeito de amar. Mas quem faz parte da minoria e desafia mesmo que minimamente a ordem social é julgado.

Ter um gosto raro ou diferente não deveria significar estar errado. A não ser em casos de desrespeito à liberdade e ao bem estar alheio como acontece em casos de pedofilia, abuso sexual e outros crimes.

Tentar enquadrar todo mundo no mesmo esquemão tem gerado muita ansiedade, depressão, transtornos alimentares, angústia e falta de perspectiva. Convencionou-se que sucesso econômico é índice da felicidade. Sim, dinheiro traz muito conforto e tranquilidade. Não nego. Mas resumir tudo a dinheiro, desconsiderando tantos outros aspectos importantes da vida é reducionista e cruel. Muita gente acha que quem ganha mais dinheiro é mais inteligente. Isto é, ganhar muito dinheiro é o índice de quem tem alta inteligência. Então seriam os traficantes de drogas pessoas muito inteligentes e os professores burros? Sim, muita gente inteligente ganha muito dinheiro honestamente. Mas associar inteligência e sucesso financeiro como elementos inseparáveis é mais uma convenção estipulada pelas estruturas de poder que estimulam que as pessoas se dediquem cada vez mais a determinadas funções da sociedade em detrimento de outras.

Há cerca de três anos arregalei os olhos ao ouvir que a crença de que toda mulher nasceu para ser mãe é um mito. Eu acreditava firmemente que todas nós nascemos para sermos mães. Este é o problema das convenções. Elas estão ali há muito tempo e ninguém ou quase ninguém sabe realmente o porquê delas. Mas nós as aceitamos como naturais porque aprendemos assim. Se fôssemos obrigados a justificar por que fazemos isso ou aquilo, a maioria esmagadora de nós gaguejaria para responder às coisas que nos soam como mais familiares.

Se a cultura é móvel e adaptável cabe a nós reconfigurar as convenções de acordo com as necessidades das novas gerações. Dizem que a moral não muda. Outra convenção. A moral também é construída a partir de convenções que satisfazem mais os grupos de poder de uma determinada época. Se há algumas décadas uma mulher era mal vista socialmente por ser separada, este valor moral funcionava muito bem aos maridos que podiam levar as esposas na rédea curta. Convencionou-se também que as mulheres só traiam por amor e que são mais frágeis. Como disse a filósofa Márcia Tiburi, a própria noção de feminilidade é uma construção patriarcal.

Os símbolos vão muito além dos números, das bandeiras, das placas de trânsito. Os nossos costumes e verdades mais enraizadas também são símbolos. Que tal analisá-los?


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Sílvia Marques
Site Meter