cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A vida é um filme europeu

Quando um desconhecido atraente nos tira para dançar num apartamento escuro e sujo, caímos nos braços e na lábia de Bertolucci. Quando devoramos a realidade e a mastigamos de boca aberta, comungamos com Pasolini. E quando tudo vira ingenuidade e poesia , sorrimos docemente para Jacques Tati.


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Cena do filme Três corações

Em alguns momentos frenéticos e passionais da vida, sinto tudo ser invadido pelas cores vivazes de Almodóvar e suas mulheres no limite das emoções.

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Volver de Almodóvar

Em outros momentos, doces e melancolicamente filosóficos, a vida se torna um filme da Nouvelle Vague e me lembro do sentimentalismo inteligente de Truffaut.

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A mulher do lado de Truffaut

Quando a vida fica ridícula demais, Woody Allen me vem à cabeça. Ok. Woody Allen não é europeu. Mas seu cinema também não se enquadra no prato feito americano. Allen faz parte da fina flor do cinema estadunidense como tantos outros nomes de peso como Scorsese, Tarantino, Coppola e Lynch.

Quando tudo se transforma em espetáculo, é inevitável pensar em Fellini e na sua onírica visão da vida como um circo. Quando o indizível das relações humanas e familiares vem à tona, sentimos o peso da mão de Bergman. Quando o sarcasmo inteligente se casa com o tédio da vida cotidiana, flertamos com Buñuel.

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O discreto charme da burguesia de Buñuel

Quando a psicopatia ganha nuances charmosas, é possível pensar em Claude Chabrol. Quando o sórdido vira poesia, somos abraçados e acariciados por Louis Malle. Quando a melancolia impronunciável da vida nos invade, olhamos nos olhos de Kieslowski. Quando sentimos o gosto ácido da vida em nossa boca depois de vomitarmos verdades, nos deparamos com Michael Haneke.

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A professora de piano de Haneke

Quando um desconhecido atraente nos tira para dançar num apartamento escuro e sujo, caímos nos braços e na lábia de Bertolucci. Quando devoramos a realidade e a mastigamos de boca aberta, comungamos com Pasolini. E quando tudo vira ingenuidade e poesia, sorrimos docemente para Jacques Tati.

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Último tango em Paris de Bertolucci

Quando a bondade humana parece fazer algum sentido, somos conduzidos pela mão de Vitorio de Sica e quando assumimos que tudo é vazio e tédio, tomamos um drink com Antonioni. Quando mergulhamos no esgoto de nossa alma, beijamos Polanski na boca.

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Lua de fel de Polanski

Sim, nossa vida poderia ser um filme europeu ou um independente americano estilo Pequena Miss Sunshine ou Beleza americana.

Os bons filmes, os que nos fazem pensar e vasculhar e entender e sentir os principais e mais profundos dramas humanos , poderiam ser a nossa vida. Eles não transmitem lições de moral fechadas nem tentam nos convencer de que a vida é fácil. Eles revelam a dor nua e crua, a verdade implacável, o desencontro. Mas também mostram toda a beleza que existe nos escombros da realidade. A poesia que existe no desencanto quando nos deparamos com a verdade. Apreciar um filme maduro é apreciar a própria vida. É aprender a gostar de si mesmo, do seu mundo interior, caótico, complexo e fascinante.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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