cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Cinema Paradiso: a metalinguagem em estado emotivo

Lembra com saudosismo o tempo em que as salas de projeção eram local privilegiado de encontro entre as pessoas, transformando o ato de ir ao cinema num significativo evento social. Mais do que isso. O cinema era um agregador social e havia toda uma magia em assistir um filme já que diferentemente de hoje não existia a possibilidade de assistir filmes em casa no horário que bem entendemos. Por se tratar do local único para se ver um filme , o ato de ir ao cinema era quase sagrado como uma missa, mas muito mais lúdico e espontâneo.


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É muito difícil não se emocionar com Cinema Paradiso. Ele mexe profundamente com o lado infantil que escondemos dentro de nós, o traz à tona e nos faz chorar como criancinhas diante de um conto de fadas. Porém, Cinema Paradiso está muito longe de ser uma história da carochinha. Com uma linguagem extremamente simples, o filme é uma comovente e inesquecível homenagem ao cinema e a todos os seus amantes. É também um belo exemplo de melodrama inteligente. cinema-paradiso-home.jpg

Normalmente filmes que apelam muito para as emoções e o choro fácil tendem a ser menos significativos ideologicamente falando e quase nada ou nada acrescentam às nossas estruturas psíquicas pois tudo se resume à catarse, sem nenhum tipo de elaboração sentimental mais sofisticada. Porém, Cinema Paradiso, apesar do caráter melodramático, consegue tocar em botões importantes da psique humana.

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Lembra com saudosismo o tempo em que as salas de projeção eram local privilegiado de encontro entre as pessoas, transformando o ato de ir ao cinema num significativo evento social. Mais do que isso. O cinema era um agregador social e havia toda uma magia em assistir um filme já que diferentemente de hoje não existia a possibilidade de assistir filmes em casa no horário que bem entendemos. Por se tratar do local único para se ver um filme , o ato de ir ao cinema era quase sagrado como uma missa, mas muito mais lúdico e espontâneo. Ali, as pessoas riam, choravam, faziam sexo, repensavam suas vidas, os meninos fumavam e descobriam sua sexualidade, num movimento oposto ao vivido na escola que era repressora. O cinema era um escape da vida real e ao mesmo tempo uma descoberta profunda da nossas verdades. O local em si era um show à parte, uma espécie de prolongamento do próprio filme.

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Depois que Cinema Paradiso pega fogo, a sala de projeção sai das mãos do padre da cidade e vai para as de um homem simples que acabou de ganhar na loteria e tem condições financeiras de reconstruí-lo. O padre proibia todas as cenas de beijo por considera-las imorais. Um toque cômico e histórico no filme. Quando o cinema passa a ser dirigido pelo napolitano os beijos são permitidos e o cinema passa a se chamar O novo Cinema Paradiso. O fogo traz muitas simbologias importantes, entre elas a destruição e o renascimento. Basta pensarmos na Fênix, figura mitológica que ressurge das cinzas. O fogo que destruiu o cinema e cegou o projecionista Alfredo é o mesmo fogo que dará origem a um cinema mais liberal e a uma chance de Totó ficar mais perto do mundo cinematográfico.

Cinema Paradiso tem muitos temas paralelos: a amizade, a descoberta do amor, a importância de seguirmos a nossa vocação, a inutilidade de tentarmos esquecer ou superar alguns fatos que determinam a nossa vida.

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Totó e Elena: um dos romances mais ingênuos do cinema

De um lado, temos Totó que se consagrou como cineasta, mas que nunca se realizou afetivamente, depois de perder seu amor de juventude.

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Viagens em cinema sempre trazem a simbologia de uma vida nova, de um longo caminho a se seguir

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Um Totó pleno e arruinado ao mesmo tempo

Do outro, temos Alfredo, o projecionista de o Cinema Paradiso, um homem simples e sem instrução, que descobrimos ao final ter uma alma de cineasta, o que ressalta a dolorosa verdade de que muitas pessoas não têm a menor possibilidade de expressarem o que são e o que sentem. São complemente esmagadas pela vida e pelas circunstâncias, restando a elas apenas sobreviver e de vez em quando sonhar.

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Alfredo vive o gênio obscuro da sociedade. É um arquétipo de todos que têm sua voz calada pelas circunstâncias

Como pano de fundo temos a Segunda Guerra Mundial na primeira fase do filme, quando Toto é ainda um menino. Nenhuma cena bélica é mostrada, mas sentimos o peso e o horror da guerra e o que ela faz com as pessoas , produzindo órfãos e viúvas, por meio da mãe de Totó, um arquétipo meio estereotipado de uma típica mama italiana , extremamente carinhosa e protetora e ao mesmo tempo sufocante e irritadiça. O filme mostra o horror da guerra por meio do sofrimento dos civis, das mulheres desamparadas e das crianças que crescem num mundo arruinado.

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Vale ressaltar que este filme apresenta duas versões: a do cinema e a do diretor. A premiada com Oscar de melhor filme estrangeiro é a do cinema , 40 minutos mais curta. A versão do diretor traz muitos fatos novos que mudam o rumo do filme. O meu artigo se refere à versão do cinema.

Vale destaque a cena final, que é antológica: uma espécie de síntese do filme sonorizada magistralmente pela música O tema do amor, de Andrea Morricone. A trilha sonora realizada por Enio Morricone mais O tema do amor formam quase que um filme à parte, estabelecendo uma relação simbiótica entre narrativa imagética e trilha sonora. Extremamente afetivo , sensível e comovente! Um filme essencial para qualquer cinéfilo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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