cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Esta bizarra forma de desejar

Quando a mulher engana, ironiza, desestrutura o lar, alguns homens sentem que precisam se esforçar para possui-las de fato. Homem tem instinto de caçador e se sente que a parceira é sua presa conquistada, o brilho se apaga. Qual a graça de fazer amor com uma mulher que é minha? Que me recebe no seu corpo de boa vontade depois de fazer o meu jantar e me olhar com ternura?



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O que existe de tão maravilhoso em uma mulher que não sabe nem deseja amar?

Costumo me questionar a respeito dos porquês que fazem uma mulher maltratada fisicamente por seu parceiro perseverar no amor. Questiono também os porquês que fazem um homem ironizado brutalmente por sua parceira perseverar no amor.

Algumas mulheres apanham na cara, são punidas fisicamente por uma mera distração ou até mesmo por parecerem muito desejáveis aos olhos do parceiro. Às vezes funcionam como meros sacos de pancada mesmo e apesar de toda a dor física e humilhação emocional, acabam perdoando seu parceiro e minimizando a atrocidade de seus gestos. Existem também os maridos e namorados socialmente exemplares, incapazes de machucar fisicamente sua parceira enquanto espancam sua alegria. Os danos não são menos devastadores.

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O que passa pela cabeça de uma mulher que acha natural ser espancada? O que ela entende por amor?

Alguns homens aceitam que sua parceira transforme a casa num verdadeiro inferno, permitindo abusos que variam desde a falta de comprometimento com as finanças do casal até humilhações públicas, que incluem adultérios descarados, muito mais para agredir e delimitar poder do que pelo prazer em si na cama de outros homens. Uma espécie de vingança coletiva pelos abusos que as mulheres sofreram ou vontade de manipular no duro, sem dó nem piedade.

Estas mesmas mulheres espancadas e severamente criticadas e estes mesmos homens humilhados que perdoam e justificam tudo em nome do amor, muitas vezes não conseguem suportar uma mulher pouco vaidosa ou um homem que engordou e ficou calvo. Estas mesmas mulheres e homens se irritam brutalmente com alguém fazendo barulho para comer ou roncando à noite, mas acham natural um olho roxo ou uma tiração de sarro no meio dos amigos.

Alcoolismo, consumismo, negligência afetiva, humilhações públicas podem ser engolidas mesmo que a seco. Uma roupa fora da moda, um gosto duvidoso para decorar a casa, a quebra de um protocolo social, um olhar menos sexy do que se deseja são crimes passíveis de desprezo e separação abrupta, sem uma justificativa plausível.

O que acontece de fato, verdadeiramente? O que faz com que as mesmas pessoas que permitam abusos homéricos, se incomodem tanto com falhas ridículas, rusgas do dia a dia?

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Por que algumas mulheres se irritam tanto com uma toalha molhada sobre a cama, mas perdoam a cantada que o marido dá na melhor amiga? Ou a mania perversa de criticá-la perante os amigos?

O que existe de tão mágico, sedutor e magnético naqueles que nos oprimem, que nos levam na rédea curta, que nos encurralam em jogos perversos, demonstrando uma total falta de caráter e afeto por nós?

Sinto que sabemos quase nada sobre o amor. Sinto que medimos e pesamos o que o outro sente por nós pelo nível de dominação. Se sou dominada, sou amada. Por quê? Por outro lado, sinto que para os homens a premissa é a seguinte: Sou desprezado, devo investir. Creio que faz parte do imaginário feminino ser dominada. Quando o homem bate, agride , de uma forma perversa , algumas mulheres se sentem acolhidas, desejadas. Nelson Rodrigues dissertou muito bem sobre este tema.

Quando a mulher engana, ironiza, desestrutura o lar, alguns homens sentem que precisam se esforçar para possui-las de fato. Homem tem instinto de caçador e se sente que a parceira é sua presa conquistada, o brilho se apaga. Qual a graça de fazer amor com uma mulher que é minha? Que me recebe no seu corpo de boa vontade depois de fazer o meu jantar e me olhar com ternura?

A mulher que traz no corpo o sêmen de outro, o deboche na boca e o desprezo na alma é como uma gazela que foge desvairadamente de seu caçador. É instigante, desafiador. Vale a pena matar e morrer por esta fêmea intrépida.

Enquanto mulheres se virem como objetos do desejo e homens se perceberem como caçadores, tudo o que restará entre nós é humilhação e submissão, lares desfeitos, corações partidos, vidas desperdiçadas, relações doentias.

O amor é simples, doce e terno. Tudo que vai além disso, é excesso e patologia.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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