cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Histórias da loucura ou outro olhar sobre a vida

O filósofo Michel Foucault defendeu a ideia de que definir o que é saudável e o que é patológico, encarcerando o considerado patológico era mais um mecanismo de poder.


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Desenho de Albino Braz, paciente-artista italiano, internado no ano de 1934 no Juquery com esquizofrenia.

A medicina psiquiátrica e a psicologia classificam quais estados mentais são saudáveis e quais são patológicos. Para a segunda categoria existem tratamentos variados incluindo a medicamentosa. Alguns problemas dependem mais da terapia como o transtorno de personalidade borderline. Outros necessitam mais fortemente da medicação como é o caso da bipolaridade por se tratar de um desajuste químico no organismo.

Já a Filosofia Clínica se dedica a cuidar das pessoas sem as nomenclaturas patologia e cura. Para A Filosofia Clínica o mais importante é fazer quem sofre se sentir melhor consigo mesmo e com a sua própria realidade sem nenhum tipo de juízo de valor. Inclusive, a Filosofia Clínica , diferentemente da psicanálise, não utiliza apenas a fala. O filósofo clínico pode analisar desenhos e poesias feitas pelo "paciente", por exemplo.

O filósofo Michel Foucault defendeu a ideia de que definir o que é saudável e o que é patológico, encarcerando o considerado patológico era mais um mecanismo de poder. Não podemos nos esquecer de Foucault teve uma grande peso no que diz respeito à dinâmica do poder e das instituições , chegando a comparar presídios e hospícios com escolas.

O psiquiatra Osório César que trabalhou por mais de 40 anos no Hospital Psiquiátrico do Juquery foi um pioneiro do tratamento da saúde mental incorporando à arte como forma de terapia. Para ele os desenhos realizados pelos pacientes extrapolam a função terapêutica. Eles eram arte. Osório doou 102 desenhos ao MASP de seus pacientes-artistas. Dos 102 desenhos, 42 pertencem a Albino Braz, um italiano esquizofrênico que revelou por meio da sua arte muitos animais selvagens e cenas eróticas. Na atual exposição do MASP, uma sala é inteiramente dedicada ao trabalho de Braz.

Na segunda sala encontramos trabalhos de muitos outros pacientes-artistas. Os desenhos de Homero Novaes me sensibilizaram particularmente pela beleza estética e pela delicadeza da sensualidade apresentada. Observando todos os desenhos , é possível perceber uma grande recorrência entre temas religiosos e eróticos. Religião e sexo: dois mitos enlouquecedores que perpassam a História da raça humana.

Apesar da simplicidade dos materiais utilizados ( papel e lápis de cor) os desenhos dos pacientes-artistas não são menos expressivos do que obras de pintores consagrados ditos "normais".

Inclusive os desenhos que anteriormente eram catalogados no MASP como arte dos alienados passaram a ser intitulados como arte do Brasil. Nome mais justo e cordial. Muitas destas pessoas que viveram no Juquery poderiam ter vivido em sociedade se tivessem nascido algumas décadas mais tarde. Albino Braz era um esquizofrênico. Atualmente, com a medicação correta ele poderia ter uma vida "normal". Mas o mais importante, talvez, seja entender e sentir que quando se trata de arte , os ditos doentes mentais têm muito a ensinar a um mundo patologicamente normal.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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