cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Liberdade e loucura: limites tênues e profundos mostrados pelo cinema

É sempre ou quase sempre muito catártico ver personagens assumindo condutas que lá no fundo gostaríamos de tomar, mesmo conhecendo toda a ética deturpada das mesmas. Não é à toa que filmes "loucos" ganham o público, por meio de seus personagens transgressores, irreverentes, intrépidos, lindamente patéticos. Gozamos simbolicamente por meio do gesto alheio.


relatos-b.jpg

Cena de Relatos selvagens. Mulher descobre-se traída na festa do casamento.

Para quem viu Relatos selvagens, sabe que o filme argentino, produzido por El deseo, a produtora do irmão de Pedro Almodóvar, é uma verdadeira orgia ao transgressor que existe dentro de cada um de nós. É uma série compulsiva de brindes eufóricos a todas as explosões que ocorrem depois de passarmos meses ou anos engolindo sapos, calando na boca palavras em nome da preservação de um emprego chato, de um casamento chocho e/ou doentio, de relações sociais insignificantes, de uma ordem social hipócrita.

Sofremos abusos de todas as naturezas. Somos roubados pelos governantes e pelos assaltantes; desprezados por um sistema que só nos considera uma peça da engrenagem, desprezados por nós mesmos que às vezes mal conseguimos nos olhar no espelho, desprezados por quem deveria mais nos amar.

De repente, recalques, palavras engasgadas, sentimentos represados, traumas antigos, tudo vem à tona numa espécie de jato gigante e azedíssimo de vômito.

Não aceitamos mais ser manipulados, enganados, roubados, ironizados, ignorados. Já não aceitamos ser tratados com desdenhosa polidez e tapinhas nas costas. Relatos selvagens mostra 6 casos de pessoas que perdem às estribeiras diante dos excessivos abusos ou dos abusivos excessos sofridos. O que pensaria e sentiria você, por exemplo, se descobrisse em plena festa de casamento, no dia mais feliz da vida de uma mulher pelo menos teoricamente, que a amante do seu noivo está se divertindo entre os convidados?

Quando a protagonista sobe ao último andar do prédio e contempla a noite ventosa , sentimos aquela imagem como a metáfora do abismo em que se converteu sua vida. Jogar-se naquele instante parecia fazer sentido. Mas ela não se joga do alto do prédio. Muito pelo contrário. Ela se joga nos braços de outro homem e depois transforma sua sem graça e jeitosinha festa num circo de horrores. Quantas de nós teria coragem de admitir que vibrou no momento em que a noiva ultrajada jogou a amante cara de pau num espelho? Quantos podem admitir que vibraram quando viram o noivinho invertebrado e canalha chorando como um bebezão imaturo?

maxresdefault (10).jpg

Quem também não vibrou com o engenheiro bombinha, um típico homem de bem, escarnecido por todos, inclusive por sua família, virar uma espécie de herói, uma espécie de ícone da hombridade mandando um sonoro "Vá para PQP" ao departamento de trânsito de Buenos Aires? Alguém ficou realmente com pena do político asqueroso que destruiu uma família por ganância e ainda tripudia sobre uma inofensiva garçonete? Quantos de nós não ficaríamos tentados a condimentar as fritas do déspota com veneno de rato? Se não saímos explodindo carros, envenenando fritas nem atirando debochadas em espelhos e humilhando e castrando simbolicamente homenzinhos imaturos não é por falta de vontade. É por uma série de motivos que conhecemos de cor e salteado.

034927 (1).jpg Por tal razão é sempre ou quase sempre muito catártico ver personagens assumindo condutas que lá no fundo gostaríamos de tomar, mesmo conhecendo toda a ética deturpada das mesmas. Não é à toa que filmes "loucos" ganham o público, por meio de seus personagens transgressores, irreverentes, intrépidos, lindamente patéticos. Gozamos simbolicamente por meio do gesto alheio.

113623_Papel-de-Parede-Pecado-Original-Original-Sin--113623_1280x1024.jpg

Apesar dos terríveis transtornos causados na vida de um pacato produtor de tabaco, que homem não se sentiria profundamente seduzido pela ideia de um amor fou como o apresentado em Pecado original?

anna-karenina-sophie-marceau.jpg

Quem nunca pensou em jogar tudo para o alto em nome de uma paixão arrebatadora , mesmo conhecendo seus possíveis efeitos trágicos? Quem não se identifica nem um pouco com a infortunada Anna Karenina?

Cinemascope-O-deus-da-carnificina-4.jpg

Quem nunca sentiu vontade de perder as estribeiras e lavar roupa suja fora de casa como os personagens de Deus da carnificina? Quantos celulares irritantes não seriam mergulhados em vasos e sanitários?

femme1.jpg

Quem nunca imaginou morrer nos braços do homem amado, congelando assim um supremo momento de felicidade e desespero como a personagem de Fanny Ardant em A mulher do lado?

O-Segredo-dos-Seus-Olhos.jpg

Quem nunca cogitou a possibilidade da vingança com as próprias mãos? Quem consegue realmente condenar veementemente um homem apaixonado que se vingou pelo brutal assassinato da esposa?

ceg8qGJjfvvGqIeThsumD2DOl7f.jpg

Quem nunca já sentiu vontade de entrar nos mais intricados jogos eróticos?

00-thelma-e-louise-papo-de-cinema.jpg

Quem não se divertiu vendo as duas anti-heroínas Thelma e Louise explodindo o caminhão daquele tipo seboso e intragável?

Vamos ao cinema para nos deparamos com a vida que não temos, com a vida que deveríamos ou gostaríamos de ter , para nos deparar com o outro que existe dentro de nós e desconhecemos por medo, por pudor, por ignorância, por instinto de sobrevivência. Usando uma nomenclatura filosófica, o cinema é dionisíaco. Ele tem o poder de nos fazer esbarrar com aquilo de mais profundo e louco e verdadeiro que existe em nós. Não é à toa que a sétima arte é considerada uma modalidade de terapia.

Erótico, bizarro, grotesco, tragicômico, inusitado, pervertido, insano...não importa qual seja o seu estilo de filme "pirado". O que conta é o poder que a sétima arte tem de traduzir as nossas mais inusitadas e inconvenientes fantasias num visceral jogo estético.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Sílvia Marques
Site Meter