cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Livre-arbítrio e destino em Spinoza

Seria delicioso acreditar numa liberdade total, como a proposta por Sartre em sua filosofia existencialista, isto é, uma filosofia que se volta para a existência e não para a essência. Para Sartre vamos nos constituindo conforme vamos vivendo. Tal pensamento se conecta a Spinoza que não concebia uma separação organizada do mundo das ideias e do mundo real.


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Não, Spinoza não achava que as coisas estavas escritas nas estrelas nem que alguma coisa precisava realmente acontecer pois já estava pré- determinada. Ele acreditava que o nosso livre arbítrio não era tão livre assim pois nossas escolhas são condicionadas por nosso meio ambiente , por nossa realidade, por nossa natureza.

Enfim, a liberdade dos outros afeta a nossa liberdade. As escolhas alheias condicionam as nossas escolhas. Onde nascemos , em qual época, em qual família também vão facilitar ou dificultar certos caminhos.

Seria delicioso acreditar numa liberdade total, como a proposta por Sartre em sua filosofia existencialista, isto é, uma filosofia que se volta para a existência e não para a essência. Para Sartre vamos nos constituindo conforme vamos vivendo. Tal pensamento se conecta a Spinoza que não concebia uma separação organizada do mundo das ideias e do mundo real.

Se algumas circunstâncias nos empurram mais para um lado do que para o outro, isso não nos exime da fazer escolhas e assumir as suas consequências.

Numa visão mais idealista, o mundo do pensamento era o real, era o que valia a pena, colocando o homem que pensa e sente à frente do homem que age. Para Spinoza o homem é uma unidade entre pensamento e atos. Mais do que isso. O que Descartes considerava racionalismo "Penso, logo existo", Spinoza refutou pois o que era considerado por outros filósofos como razão, para ele não passava de imaginação.

Outro aspecto refutado por Spinoza é o termo Homem para designar individualidades. Se definimos por exemplo que o Homem tem determinadas qualidades, não poderíamos considerar como seres humanos aqueles desprovidos de tais traços. Convenhamos que pensar não está muito em moda e nem por isso deixamos de considerar pessoas não reflexivas como fora da raça humana. Para Spinoza deveríamos falar sobre homens singulares.

Admito a minha fraqueza em querer acolher o mundo como algo dual e ficaria com o homem ou os homens que pensam e sentem. Mas por outro lado, esta combinação entre materialidade e imaterialidade é consistente pois não ignora nenhum aspecto da realidade. E falando nesta tal realidade tão subjetiva e fragmentada, tão questionada e desconstruída por filósofos como Deleuze e por artistas surrealistas como o cineasta Luis Buñuel, numa mescla de transgressão e idealismo, para Spinoza só podemos considerar como realidade aquilo que nos é papável e captado pelo intelecto e pelos sentidos simultaneamente. Se algo não passa pelos sentidos não é real e não é racional.

Sob a perspectiva filosófica, é possível refletir e questionar o simbólico na nossa sociedade e na nossa cultura. Algumas atitudes, alguns lugares, alguns estilos de vida são relacionados a melhor status , a maior realização e felicidade. Os valores sociais concebem a felicidade como algo linear e uniforme , isto é , igual a todos desrespeitando as individualidades. O ideal de sucesso que se tornou socialmente falando sinônimo de felicidade , é fazer uma faculdade depois de sair da escola, arrumar um emprego rentável , acumular dinheiro e comprar uma casa num condomínio fechado, além de realizar um casamento tradicional e ter dois filhos e um cachorro.

Lutamos por tais conquistas de forma quase que mecânica pois não paramos para refletir sobre nossas prioridades e o nosso conceito particular de sucesso e felicidade. E qualquer pessoa que contrarie tais valores será mesmo que sutilmente pressionada e constrangida socialmente. É preciso estar muito convicto das suas escolhas para não ceder ao jogo social nem se sentir menos por ter optado por outro caminho.

A filosofia muito mais do que um emaranhado de conceitos teóricos, é uma forma crítica e criativa de entender e sentir a vida. Ou pelo menos tentar entendê-la parcialmente , pois verdades absolutas não existem quando falamos de assuntos subjetivos e fugidios como a felicidade.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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