cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Nada é o que aparenta ser

Se os conflitos e fundamentalismos que assolam o Oriente Médio denotam uma falta impiedosa de alteridade, os ocidentais apesar da liberalidade de pensamento não são completamente inocentes a respeito deste tema porque países com extremismo político e religioso apenas jogaram uma lente de aumento em cima de situações vivenciadas no Ocidente como o etnocentrismo e o autoritarismo.


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Temos um olhar etnocêntrico sobre o mundo. E pensando filosoficamente, podemos comparar a Europa como o mundo que existe fora da caverna de Platão. Tudo o que acontece em terras tupiniquins parece um mero reflexo pálido da realidade. Vemos a Europa e quando me refiro ao velho continente, faço menção aos países da Europa Central principalmente e alguns mediterrâneos como a nossa salvadora e nossa algoz em medidas iguais. É uma relação de amor e ódio em que saímos fascinados por algo que extrapola as sombras da caverna. Nem todos podem suportar a luz do sol e o fogo do saber, da verdade nua e crua. Por outro lado, talvez esta realidade não seja tão luminosa e as sombras existam dentro de nós, na nossa ilusão de que o continente Europeu represente algo superior, algo paradigmático.

Promotora de duas grandes guerras e muitos outros conflitos, a Europa também apresenta fortes exemplos de colonização predatória. Se hoje, aplaudimos por exemplo, o senso humanitário francês que acolhe anualmente milhares de imigrantes africanos e do Oriente Médio, não podemos nos esquecer de que a França como colônia dilapidou tais países a ponto de eles não terem condições de se manter. Esta é a lógica do capitalismo parasitário explicitada por Bauman.

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Se a iniciativa alemã de acolher cerca de 800 mil sírios parece comovente, não podemos nos esquecer de que nunca foi o forte da Alemanha respeitar as diferenças e sem desmerecer o lado benéfico da iniciativa, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditarmos que a triste foto do menino sírio tenha estimulado de forma predominante tais ações de acolhimento. Iniciativas humanitárias no âmbito político geram uma boa imagem e consequentemente uma dose extra de poder. Se hoje a Alemanha leva a União Europeia nas costas , não é apenas por uma questão de apelo e pressão popular, mas também e principalmente parte de um antigo sonho de hegemonia. Sem contar que a Alemanha apresenta uma grande população idosa e necessita de trabalhadores jovens.

3c95f9a40251d62937b0f7c8068d43a0-radio-gvc-106-1-fm.jpg É lamentável perceber que as pessoas tomam consciência dos cruéis conflitos apenas quando uma câmera capta um momento extremo.

Se os conflitos e fundamentalismos que assolam o Oriente Médio denotam uma falta impiedosa de alteridade, os ocidentais apesar da liberalidade de pensamento não são completamente inocentes a respeito deste tema porque países com extremismo político e religioso apenas jogaram uma lente de aumento em cima de situações vivenciadas no Ocidente como o etnocentrismo e o autoritarismo. Dizer que muitos países resistem a receber sírios por um mero sentimento de xenofobia me parece reduzir a questão. Sim, há muita xenofobia na Europa, entre eles inclusive. As antipatias e preconceitos existentes entre os países do velho continente são múltiplos e muitas vezes difíceis de entendermos. Mas, por outro lado, reduzir tudo a xenofobia é um pouco de exagero já que o grande número de imigrantes desiquilibra a economia destes países anfitriões, gerando mais desemprego, violência e jogando luz sobre as próprias contradições existentes dentro de cada cultura.

Muito mais que a escassez de empregos e condições mínimas de vida a todos, a convivência de diversas culturas impele a todos a uma profunda reavaliação da sua própria cultura. O estrangeiro para Lotman era altamente sedutor. Por outro lado, o novo gera ruídos e consequentemente desconfiança. Como ser e agir diante do novo? Como respeitar o novo sem se desrespeitar? Como acolher sem ser engolido? Como se preservar sem agredir? Como brasileiros tendemos a lidar mais e melhor com as diferenças e até mesmo o nosso preconceito é velado e manifesto com uma sofisticação ímpar. Na Europa os conflitos são mais ingênuos porque aparecem menos escamoteados e com menos borogodó.

FC735E2BFF360F9731E5257764D33E83D921E3210307BA684F060123C58B9003.jpg O semioticista da Cultura Yuri Lotman dissertou sobre as ricas redes de interferências mútuas geradas a partir do contato com culturas estrangeiras

Se entre eles as crises e rivalidades já são marcantes, imaginem acrescentar novos elementos à mistura? Se acolher pessoas fugindo da guerra é essencial num primeiro momento, uma solução a longo prazo deve ser buscada incessantemente. Imagino a seguinte situação da Síria como a de moradores de uma comunidade atingida por uma enchente. Nos primeiros dias as pessoas desabrigadas são acolhidas em espaços públicos e recebem o mínimo necessário para se manterem alimentadas e aquecidas. Mas ninguém pode viver numa sala de aula ou num ginásio eternamente, dormindo sobre um colchonete. É preciso encontrar um novo lugar para se viver. A Europa e outros países devem sim receber refugiados, mas o buraco fica bem mais embaixo e reformas mais drásticas e profundas devem ser feitas para ontem. Cada cultura deve ser respeitada. Não cabe a ninguém julgar o que é certo ou errado até mesmo porque estes padrões não existem no âmbito cultural. E quando dizem que uma cultura é superior à outra , é no sentido econômico e tecnológico, âmbitos muito limitados para quem se aprofunda em temas culturais. Por outro lado, até a alteridade possui limites. Países que afrontam descaradamente os direitos humanos de seus cidadãos, perseguindo os seus, deveriam sofrer forte boicote econômico já que parece que este âmbito é o que atinge de forma mais similar a todos.

O mundo de hoje já não deve mais dialogar e tentar entender conceitos e valores que desrespeitem os direitos humanos e a liberdade religiosa. As culturas e governos incapazes de lidar com as diferenças devem sofrer no bolso as consequências da sua intolerância.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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