cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

Nada é o que aparenta ser

Se os conflitos e fundamentalismos que assolam o Oriente Médio denotam uma falta impiedosa de alteridade, os ocidentais apesar da liberalidade de pensamento não são completamente inocentes a respeito deste tema porque países com extremismo político e religioso apenas jogaram uma lente de aumento em cima de situações vivenciadas no Ocidente como o etnocentrismo e o autoritarismo.


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Temos um olhar etnocêntrico sobre o mundo. E pensando filosoficamente, podemos comparar a Europa como o mundo que existe fora da caverna de Platão. Tudo o que acontece em terras tupiniquins parece um mero reflexo pálido da realidade. Vemos a Europa e quando me refiro ao velho continente, faço menção aos países da Europa Central principalmente e alguns mediterrâneos como a nossa salvadora e nossa algoz em medidas iguais. É uma relação de amor e ódio em que saímos fascinados por algo que extrapola as sombras da caverna. Nem todos podem suportar a luz do sol e o fogo do saber, da verdade nua e crua. Por outro lado, talvez esta realidade não seja tão luminosa e as sombras existam dentro de nós, na nossa ilusão de que o continente Europeu represente algo superior, algo paradigmático.

Promotora de duas grandes guerras e muitos outros conflitos, a Europa também apresenta fortes exemplos de colonização predatória. Se hoje, aplaudimos por exemplo, o senso humanitário francês que acolhe anualmente milhares de imigrantes africanos e do Oriente Médio, não podemos nos esquecer de que a França como colônia dilapidou tais países a ponto de eles não terem condições de se manter. Esta é a lógica do capitalismo parasitário explicitada por Bauman.

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Se a iniciativa alemã de acolher cerca de 800 mil sírios parece comovente, não podemos nos esquecer de que nunca foi o forte da Alemanha respeitar as diferenças e sem desmerecer o lado benéfico da iniciativa, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditarmos que a triste foto do menino sírio tenha estimulado de forma predominante tais ações de acolhimento. Iniciativas humanitárias no âmbito político geram uma boa imagem e consequentemente uma dose extra de poder. Se hoje a Alemanha leva a União Europeia nas costas , não é apenas por uma questão de apelo e pressão popular, mas também e principalmente parte de um antigo sonho de hegemonia. Sem contar que a Alemanha apresenta uma grande população idosa e necessita de trabalhadores jovens.

3c95f9a40251d62937b0f7c8068d43a0-radio-gvc-106-1-fm.jpg É lamentável perceber que as pessoas tomam consciência dos cruéis conflitos apenas quando uma câmera capta um momento extremo.

Se os conflitos e fundamentalismos que assolam o Oriente Médio denotam uma falta impiedosa de alteridade, os ocidentais apesar da liberalidade de pensamento não são completamente inocentes a respeito deste tema porque países com extremismo político e religioso apenas jogaram uma lente de aumento em cima de situações vivenciadas no Ocidente como o etnocentrismo e o autoritarismo. Dizer que muitos países resistem a receber sírios por um mero sentimento de xenofobia me parece reduzir a questão. Sim, há muita xenofobia na Europa, entre eles inclusive. As antipatias e preconceitos existentes entre os países do velho continente são múltiplos e muitas vezes difíceis de entendermos. Mas, por outro lado, reduzir tudo a xenofobia é um pouco de exagero já que o grande número de imigrantes desiquilibra a economia destes países anfitriões, gerando mais desemprego, violência e jogando luz sobre as próprias contradições existentes dentro de cada cultura.

Muito mais que a escassez de empregos e condições mínimas de vida a todos, a convivência de diversas culturas impele a todos a uma profunda reavaliação da sua própria cultura. O estrangeiro para Lotman era altamente sedutor. Por outro lado, o novo gera ruídos e consequentemente desconfiança. Como ser e agir diante do novo? Como respeitar o novo sem se desrespeitar? Como acolher sem ser engolido? Como se preservar sem agredir? Como brasileiros tendemos a lidar mais e melhor com as diferenças e até mesmo o nosso preconceito é velado e manifesto com uma sofisticação ímpar. Na Europa os conflitos são mais ingênuos porque aparecem menos escamoteados e com menos borogodó.

FC735E2BFF360F9731E5257764D33E83D921E3210307BA684F060123C58B9003.jpg O semioticista da Cultura Yuri Lotman dissertou sobre as ricas redes de interferências mútuas geradas a partir do contato com culturas estrangeiras

Se entre eles as crises e rivalidades já são marcantes, imaginem acrescentar novos elementos à mistura? Se acolher pessoas fugindo da guerra é essencial num primeiro momento, uma solução a longo prazo deve ser buscada incessantemente. Imagino a seguinte situação da Síria como a de moradores de uma comunidade atingida por uma enchente. Nos primeiros dias as pessoas desabrigadas são acolhidas em espaços públicos e recebem o mínimo necessário para se manterem alimentadas e aquecidas. Mas ninguém pode viver numa sala de aula ou num ginásio eternamente, dormindo sobre um colchonete. É preciso encontrar um novo lugar para se viver. A Europa e outros países devem sim receber refugiados, mas o buraco fica bem mais embaixo e reformas mais drásticas e profundas devem ser feitas para ontem. Cada cultura deve ser respeitada. Não cabe a ninguém julgar o que é certo ou errado até mesmo porque estes padrões não existem no âmbito cultural. E quando dizem que uma cultura é superior à outra , é no sentido econômico e tecnológico, âmbitos muito limitados para quem se aprofunda em temas culturais. Por outro lado, até a alteridade possui limites. Países que afrontam descaradamente os direitos humanos de seus cidadãos, perseguindo os seus, deveriam sofrer forte boicote econômico já que parece que este âmbito é o que atinge de forma mais similar a todos.

O mundo de hoje já não deve mais dialogar e tentar entender conceitos e valores que desrespeitem os direitos humanos e a liberdade religiosa. As culturas e governos incapazes de lidar com as diferenças devem sofrer no bolso as consequências da sua intolerância.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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