cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O raciocínio retórico das mídias

Quando olhamos para o foto do menino sírio morto, rostinho na areia, roupinha bonita e sapatinhos, vemos apenas aquele menino e o sofrimento de seu pai, único sobrevivente da família ou vemos também o sofrimento de tantas outras pessoas da Síria e do mundo inteiro, incluindo as nossas comunidades pobres, divididas entre a polícia e o tráfico?


v (1).jpg Favela em São Paulo

As fotografias do garotinho sírio de apenas três anos, morto na areia e depois nos braços de um policial turco provocaram uma mobilização social, gerando matérias inflamadas, cheias de sentimentalismo e mágoa.

As pessoas começaram a sentir o que está acontecendo na Síria desde 2011, como se a morte do menino sírio fosse o primeiro evento desastroso e profundamente triste ocorrido durante mais de três anos.

A foto do menino morto se tornou um ícone da guerra na Síria e das atrocidades que estão acontecendo há mais de três anos. Mais do que isso. A foto do menino sírio se tornou um ícone do próprio desprezo pela infância e pela vida humana.

Ficamos paralisados ou em prantos diante da crueza da foto. É como se de repente fosse jogada em nossa cara sem dó nem piedade uma verdade doída demais para aceitar.

Enquanto soubemos das milhares de mortes pelos jornais e noticiários, as pessoas torturadas, incluindo criancinhas como o menino sírio, tudo não passava de estatística e notícia cansativa antes da novela.

Porém, diante de uma foto tão dura e realista, não podemos mais negar, fechar os olhos, nos colocar à parte. A foto nos arrastou para a guerra, para o drama , para a tragédia e agora estamos todos nos sentindo um pouco culpados, um pouco vítimas, um pouco omissos, um pouco desesperados. Por que não choramos antes da foto? Por que não nos indignamos antes da foto? Por que não nos revoltamos e perdemos a vontade de ser feliz diante de tantas outras tragédias que ocorrem no nosso país, no nosso estado, na nossa cidade?

Quando olhamos para o foto do menino sírio morto, rostinho na areia, roupinha bonita e sapatinhos, vemos apenas aquele menino e o sofrimento de seu pai, único sobrevivente da família ou vemos também o sofrimento de tantas outras pessoas da Síria e do mundo inteiro, incluindo as nossas comunidades pobres, divididas entre a polícia e o tráfico?

Se esta foto serviu para abrir as portas da nossa consciência para as milhares de crianças mortas todos os dias, nossas lágrimas não foram em vão. Caso contrário, nosso sofrimento não passou de mero estímulo a um ato sensacionalista.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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