cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Os filósofos rebeldes e a transvaloração de Nietzsche

Não é a História da Filosofia que nos fará crescer intelectual e afetivamente. Se nos restringirmos a decorar fatos e nomes, a filosofia se transformará em mais uma fonte de conhecimento estanque e inútil, um mecanismo a mais de pedantismo numa sociedade hipnotizada por filmes fúteis, grifes, livros de autoajuda , frases prontas e uma superficialidade de dar nos nervos.


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Três nomes marcantes da filosofia francesa do século XX são Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Derrida. Nomeados de filósofos rebeldes, estes três irreverentes pensadores apostaram na transgressão.

Foucault, de forma simplificada, questionou as instituições e defendeu a ideia de que o poder se manifesta em rede. Isto é, quem emite o poder é vítima dele também. Comparou presídios e hospícios a escolas.

Deleuze questionou os limites entre realidade e sonho, colocando os filmes como objetos e não como signos ou representações. Isto é, o cinema é uma parcela da vida real.

Derrida investiu na desconstrução dos textos, conferindo aos mesmos o poder de apresentar leituras variadas e não um único sentido imposto pelo autor.

Por meio de fortes questionamentos e desconstruções, podemos comparar estes três nomes a Nietzsche. O célebre filósofo alemão influenciou o trio rebelde e podemos dizer que seu conceito de transvaloração se relaciona com as problemáticas de Foucault, Deleuze e Derrida.

A transvaloração é a transcendência dos valores, isto é, ir além dos valores e viver a vida apartado de determinados preceitos morais que nos sãos transmitidos como inquestionáveis e os aceitamos porque eles estiveram ali desde sempre, mas se pararmos para refletir alguns não fazem muito sentido ou possuem uma lógica perversa. Muitos valores sociais servem realmente apenas para fazer a manutenção do poder e induzir às pessoas a uma vida inexpressiva e mecânica.

Nietzsche é conhecido como um filósofo niilista, isto é, pessimista ao extremo, que não acredita em nada. Pelo contrário. Nietzsche tentou nos orientar a deixar uma situação niilista e partir para outra mais significativa. Ao questionar o poder institucional, encontramos um forte ponto com Foucault e ao defender uma vida mais significativa encontra-se com Deleuze que valorizava a satisfação dos desejos e certa dose de demência como um atrativo para o amor.

Qual é o sentido de falarmos sobre Nietzsche e os filósofos rebeldes na atualidade? Num mundo extremamente consumista, massificado e mediocrizado como o nosso, em que revistas de moda e decoração substituíram os livros religiosos e no lugar de cultuar a Deus, cultuamos o corpo perfeito num estilo bem espartano, quase nazista, jogando fora simbolicamente aqueles que ficam à margem do sistema consumista, filosofar é um hábito que devemos adquirir para ontem.

Não me refiro a decorar nomes de filósofos e as datas em que eles nasceram e morreram. Também não me refiro a engolir a seco a linha de pensamento dos mais importantes filósofos sem questioná-los. Não é a memorização de nomes e datas que nos salvará de qualquer coisa. Não é a História da Filosofia que nos fará crescer intelectualmente e afetivamente. Se nos restringirmos a decorar fatos e nomes, a filosofia se transformará em mais uma fonte de conhecimento estanque e inútil, um mecanismo a mais de pedantismo numa sociedade hipnotizada por filmes fúteis, grifes, livros de autoajuda , frases prontas e uma superficialidade de dar nos nervos.

O que pode fazer algo por nós é o exercício, é a prática da filosofia. É a prática de refletir, de colocar as questões sobre a mesa e dissecá-las como sapos no laboratório. É a prática da análise e da autoanalise, da busca incessante pelo conhecimento que transforma as pessoas, começando por nós mesmos. É o questionamento vigoroso do estabelecido.

Por que o sucesso de uma pessoa se mede pelo dinheiro? Alguém trabalhando no que gosta e tendo uma vida mais simples não pode ser alguém de sucesso? Por que a assinatura de uma bolsa vale tanto? Por que o amor hetero vale mais do que o homo? Por que casais precisam necessariamente ter filhos? Por que precisamos perdoar quem nos magoa profundamente e nem ao menos nos pede desculpas e continua levando a vida numa boa? Por que aguentar em silêncio gente que pergunta qual é a utilidade da arte, da literatura e da filosofia? Para estas pessoas a resposta ideal é a seguinte: para o mundo ter menos imbecis.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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