cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Réquiem para um sonho e o desespero de viver

Todos saem de vidas medíocres e mergulham num verdadeiro pesadelo que deixaria David Lynch com inveja. Toda a poesia e amor que não encontraram na realidade, buscaram no sonho. Mas o sonho os conduz a uma realidade ainda mais severa e cruel, transformando aquilo que era apenas triste e medíocre em assombroso.


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Antes de dirigir o perturbador Cisne negro, Darren Aronofsky já havia nos brindado anos antes com um filme alucinógeno, poesia na veia, uma pintura abstrata da arte de enlouquecer dia a dia diante de um cotidiano que não faz o menor sentido. Personagens solitários, transbordantes de bálsamo e veneno, tragados por suas paixões corrosivas lançam-se de olhos fechados num destino impiedoso.

Uma senhora idosa preenche suas lacunas e fome de reconhecimento e afeto por meio de um programa televisivo que simboliza bem o psicótico American way of life. Seu filho foge de uma vida sem perspectiva juntamente com seu melhor amigo injetando drogas até perder o braço. Sua rica e linda namorada mata sua fome de amor se drogando. Os pais lhe deram tudo materialmente, inclusive consultas num renomado psiquiatra para compensar o afeto miguelado. Na dinâmica das sociedades consumistas da atualidade o dinheiro compensa tudo. Ou finge-se acreditar nesta teoria para ganhar-se dinheiro sem culpa.

Todos saem de vidas medíocres e mergulham num verdadeiro pesadelo que deixaria David Lynch com inveja. Toda a poesia e amor que não encontraram na realidade, buscaram no sonho. Mas o sonho os conduz a uma realidade ainda mais severa e cruel, transformando aquilo que era apenas triste e medíocre em assombroso.

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No final das contas, realidade e sonho se revelam duas faces da mesma moeda de horror. Um filme sensível e impiedoso, que não relativiza nem aplaca o vazio e o desespero da vida.

Com imagens frenéticas e oníricas nos sentimos conduzidos pelas mãos dos personagens que abrem as portas da mente para os espectadores, numa hipérbole constrangedora de intimidade.

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Às vezes o real se confunde também com o sonho já que filosoficamente falando sonho e realidade tem seus limites confusos. O filósofo francês Gilles Deleuze desconstruiu as barreiras entre real e sonho, questionando o que seria cada um deles. Será que para os personagens de Réquiem para um sonho o sonho não era a realidade pois suas vidas cotidianas eram mecânicas e artificiais?

Uma cena singela que merece destaque é quando o jovem e apaixonado casal protagonista dispara um alarme em um prédio e se esconde do vigia. Eles transgridem por transgredir, para desafiar a mesmice, para brindar ao encontro amoroso. O amor romântico é uma espécie de patologia e transgressão simultaneamente. Os apaixonados tem seus cérebros modificados como os usuários de cocaína. Mais uma bela metáfora para saborearmos lentamente, deixando-a debaixo da língua para prolongar seu gosto autêntico.

Com imagens fortes, uma trilha marcante e um elenco intenso somos impelidos a mergulhar em nossos próprios sonhos e obscuridades.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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