cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Ressignificar a vida é preciso

Saber dar novos significados a perdas e a experiências dolorosas é fundamental para quem deseja ter uma vida emocional mais sana, por mais que as pessoas mais saudáveis no sentido mental sejam muitas vezes as que aparentam menos normalidade.


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Talvez não haja nada mais fundamental do que a capacidade de ressignificar a vida. Todos nós passamos por traumas e frustrações. Quem nunca passou por um grande susto na infância? Quem nunca sentiu um grande medo? Quem nunca amou sem ser correspondido? Quem nunca se desapontou com um grande amigo?

Dramas e tragédias fazem parte da existência humana. Além das perdas e sofrimentos ainda precisamos lidar com uma série de cobranças sociais e imposições que vão retirando pouco a pouco a liberdade das nossas escolhas e a autenticidade do nosso jeito de ser e viver.

Saber dar novos significados a perdas e a experiências dolorosas é fundamental para quem deseja ter uma vida emocional mais sana, por mais que as pessoas mais saudáveis no sentido mental sejam muitas vezes as que aparentam menos normalidade. Como assim?

Costumamos achar que o ideal dos comportamentos é o que cumpre à risca todos os protocolos sociais. É o funcionário humilhado pelo chefe déspota que engole a ofensa injusta a seco. É a mulher traída que finge ignorar o adultério do marido para proteger os filhos. É o jovem que faz de tudo para ser aceito pelo grupinho popular da escola, mesmo que para isso precise contrariar seus valores, praticando bullying , consumindo drogas ou frequentando lugares que ele não frequentaria se não necessitasse tanto da aceitação social. É o filho que segue uma determinada carreira para alegrar os pais. É alguém que escolhe uma profissão pelo simples fato de ela ser rentável. É a pessoa incapaz de fazer escolhas a partir de seus referenciais e acaba se espelhando nas pessoas consideradas bem sucedidas da sociedade, transformando revistas de fofocas em manuais de vida.

Talvez, as pessoas mais saudáveis emocionalmente sejam aquelas capazes de fazerem escolhas da forma mais livre possível. Liberdade total é uma utopia pois estamos restritos por nossas condições sociais, culturais e até mesmo temperamentais. Quem decide com uma boa dose de liberdade e arca com as consequências das suas escolhas produz uma rotina mais significativa e menos sujeita aos diversos despotismos sociais, que exigem contas bancárias polpudas, carro do ano, três celulares tocando na hora do almoço, terno e gravata ou tailleur e salto fino.

Quem se desprende dos signos publicitários, do autoritarismo do discurso social que restringe o conceito de felicidade a sucesso, tornando a experiência fragmentada , prazerosa, intrigante e altamente subjetiva de se sentir feliz em algo contínuo, linear , sem sobressaltos, massificada e asséptica, consegue reciclar as más experiências em importantes ensinamentos. Consegue se libertar de exigências que não vem de nós, mas de uma fonte dispersa e extremamente poderosa que nos obriga a dar o nosso melhor por coisas que nem sempre nos tornarão mais realizados.

A felicidade é subjetiva. O que me faz feliz não fará você feliz necessariamente. Enquanto algumas mulheres dariam anos de suas vidas para serem mães, outras dariam anos para não serem. O mesmo aplica-se aos homens em relação à paternidade. Tem gente que se sente super bem em casamentos tradicionais. Outras preferem relacionamentos mais soltos, com menos cobranças. Cada um na sua casa. Algumas pessoas adoram rotinas bem certinhas. Outros amam horários mais flexíveis, ambientes de trabalho mais descontraídos.

Tem gente que adora passar as férias no campo. Outros, na praia. Algumas pessoas se nutrem com o frenesi da grandes cidades. Outros sonham com uma rede numa cidade pequena. As músicas que fazem nosso coração disparar não são as mesmas nem os filmes capazes de transtornar nosso mundo íntimo. O que é lindo para mim, pode ser cafona para você e o que me assusta, de repente te desafia. Enfim, se somos tão particulares e subjetivos, qual é o sentido de tentarmos criar um modelo, uma receita fechada de sucesso e felicidade? Que os executivos me perdoem. Mas tem muita gente feliz vendendo sanduíche na praia. E para mim, ter sucesso é se sentir bem consigo mesmo. Muitas pessoas se descobrem muito mais felizes e muito mais elas em ambientes menos atingidos pelo poder e pela necessidade de seguir rígidos protocolos.

A vida não é um comercial de margarina nem um folheto de empreendimento imobiliário que vem com o jornal de domingo. Uma família sorridente, composta por um casal e dois filhos, normalmente um menino e uma menina num dia luminoso de sol. Qualidade de vida não é necessariamente passar o dia em uma piscina até mesmo porque algumas pessoas preferem ler num dia chuvoso. E nem por isso elas estão deprimidas. Família ideal não é necessariamente a formada por um casal hetero e um casalzinho lindo de filhos. Não existe família ideal. Existem famílias que se amam. Quem disse que todo mundo precisa fazer faculdade depois que termina a escola? Quem disse que todo mundo precisa casar e ter filhos? Dois de preferência? Quem disse que aquilo que nos move cabe num panfleto?

Precisamos nos libertar do sentimento de dívida em relação à sociedade quando não somos ou não vivemos de acordo com aquilo que foi estabelecido como felicidade. Começar a avaliar os próprios sentimentos e analisar o que nos dizem é fundamental para fugirmos às armadilhas que roubam nossa energia vital. Quando entendermos que o amor é muito mais uma forma de autoconhecimento do que uma necessidade social, perceberemos que emendar relação em relação não é tão importante como muitos imaginam.

Quando percebermos que só podemos ter sucesso sendo nós mesmos , nos encontraremos cercados por pessoas que valem a pena, que enriquecem o nosso mundo interior.

Quando aprendermos a saborear os momentos, descobriremos que a felicidade é muito mais simples e ao mesmo tempo complexa do que imaginávamos.

Ressignificar a vida é preciso pois mais importante do que termos e fazermos, é como nós enxergamos a realidade. Quem tece uma realidade rica e significativa, pode viver de uma forma material muito mais desprendida.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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