cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre desejar ditaduras ou a renúncia da cidadania

Em um país comandado por uma ditadura, viramos robôs programados ou focas adestradas. Perdemos o direito de pensar, de ter opiniões. Se hoje, alguns podem expressar livremente que querem a ditadura, se realmente a conseguirem, nunca mais poderão falar mais nada. Muitos criticam severamente o sistema atual, mas se esquecem que apesar de todos os horrores que vivemos, podemos dizer o que bem entendermos sem sermos jogados em celas, torturados até a morte ou à loucura.


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Pra frente Brasil, de Roberto Farias: filme altamente recomendável para quem sonha com ditaduras militares. Pai de família é confundido com militante político e é torturado até a morte por causa de um mal entendido.

Diante tantos escândalos e corrupção que assolam o nosso país desde os primórdios da nossa História, pessoas cansadas de tanta violência, negligência política e toda sorte de escárnios que um povo como o nosso enfrenta ( aqui, quanto mais honesta, mais desvalorizada a pessoa é) alguns sentem saudade da ditadura militar, sonhando com o dia que poderão voltar do trabalho, da faculdade ou do barzinho depois das 22 h sem medo de ser assaltado ou coisa pior.

Pessoas que pagam os impostos, trabalham e agem corretamente e só veem seus direitos violados por meio de todos os tipos de corrupção e violência, querem pôr ordem na casa.

Mas se esquecem de um gigantesco detalhe: se a situação brasileira está a milênios de distância de qualquer ideal, uma ditadura só jogaria a pá de cal sobre o nosso povo.

Vamos fazer uma analogia? Uma mulher farta do marido mulherengo e beberrão, que gasta tudo que ganha com cachaça, decide sair de casa e se encerrar numa entidade onde ela nunca mais poderá ver a luz do sol ou conversar com outras pessoas. Não lhe faltará comida nem uma cama quente e macia. Ela não precisará mais suportar as grosserias do marido, mas também não poderá expressar nenhum tipo de sentimento ou opinião. Entendem o que quero dizer? Para se livrar de uma situação indesejável, opta pela perda da sua liberdade.

Quando optamos por renunciar à liberdade, abrimos mão de todas as possibilidades existentes. Abrimos mão de sermos nós mesmos, de nos expressarmos de acordo com as nossas crenças e convicções. Abrir mão da liberdade significa morrer com palavras engasgadas na garganta e sentir um medo constante de ser mal interpretado e julgado por uma fala fora de contexto. Abrir mão da liberdade é deixar de sorrir, de rir. É viver numa constante blitz em que as pupilas ficam um pouco dilatadas sempre, à espera de uma punição qualquer.

Em um país comandado por uma ditadura, viramos robôs programados ou focas adestradas. Perdemos o direito de pensar, de ter opiniões. Se hoje, alguns podem expressar livremente que querem a ditadura, se realmente a conseguirem, nunca mais poderão falar mais nada. Muitos criticam severamente o sistema atual, mas se esquecem que apesar de todos os horrores que vivemos, podemos dizer o que bem entendermos sem sermos jogados em celas, torturados até a morte ou à loucura.

Se hoje podemos dizer que preferimos isso ou aquilo, numa ditadura muitos profissionais perdem sua razão de existir. Qual é a função de um artista, de um comunicólogo ou de um professor numa ditadura? Existem duas opções bem básicas: virar adestradores de foca, repetindo apenas o que pode ser falado ou botar a vida em risco juntamente com a dos seus familiares.

Se sentimos nossos direitos violados quando somos assaltados e/ou agredidos nas ruas e no transporte público, as ditaduras também violam os nossos direitos até mesmo porque quem tem direitos são cidadãos. A ditadura cobra um preço muito alto por mais segurança pública e estabilidade econômica: ela toma como pagamento por seus serviços a cidadania.

Não temos direitos numa ditadura porque deixamos de ser cidadãos. Por tal razão, a qualquer momento crianças podem ser arrancadas da casa dos pais, bebês do seio da mãe e serem entregues a qualquer outra família. Por esta razão, a sua casa pode ser invadida a qualquer momento e posta a baixo legalmente falando. Por tal razão, escolas, teatros e escritórios podem ser invadidos a qualquer hora desconsiderando totalmente leis de propriedade, que são caras aos defensores das ditaduras.

Muitos pensam que se beneficiariam com a ditadura pois não se envolveriam mais com política caso se sentissem seguros. E se eles pensarem por algum motivo que você está envolvido? E se ocorrer algum mal entendido? Você provavelmente tentará se explicar enquanto leva choques elétricos, completamente nu e humilhado. Não vai adiantar.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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