cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Amor e revolta: as palavras mais revolucionárias que existem

O amor nos dá coragem, nos faz questionar tabus , preconceitos, nos faz nos atirar na linha de frente da vida, correndo riscos, dando a cara a tapa e de certa forma desfocando das questões e interesses puramente econômicos. Pessoas apaixonadas rendem menos profissionalmente porque além de trabalhar , querem amar. Pessoas apaixonadas têm a coragem de apontar os ridículos de determinadas regras que visam apenas uma vigilância tirânica. Pessoas apaixonadas provocam inveja e desconforto.


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Cena do filme A idade do ouro, de Luis Buñuel

O cineasta espanhol Luis Buñuel dizia que amor e revolta eram as palavras mais revolucionárias que existiam. Afirmava também que Sade era um amoroso pois era capaz de odiar. Dizia-se ateu graças a Deus e outras frases tão polêmicas e instigantes quanto seus filmes que mergulhavam fundo nas grandes questões humanas sem perder de vista a ironia e o senso lúdico.

Para a nossa sociedade, a violência é menos nociva do que o sexo. Uma cena de tortura fere menos do que a exposição de um corpo nu ou uma demonstração erótica de afeto. Tememos mais o suor que se desprende da pele do que o sangue que jorra depois de uma sequência de socos e chutes.

Mas por quê tememos tanto o erótico? Por que rimos e ruborizamos ou simplesmente fechamos a cara e nos aborrecemos e nos ofendemos quando vemos uma cena picante no cinema ou escutamos uma piada de sexo?

Talvez a resposta esteja nas palavras de Buñuel. O amor erótico tem um poder revolucionário tão forte e desestruturador quanto qualquer revolta. Não é à toa que governos de ditadura , tanto de direita quanto de esquerda, tentam a todo custo higienizar os costumes, tornando as pessoas assépticas e consequentemente mais dóceis, submissas e passivas.

Nenhuma ditadura se restringe a oprimir apenas os âmbitos político e econômico. Até mesmo porque a política vai muito além da administração dos bens públicos. A política é todo e qualquer tipo de negociação. Quando a política não resolve mais as questões, parte-se para o corpo o corpo.

Ditaduras reprimem os costumes, as artes, a educação, a moral, as religiões e muitas vezes se emaranham nos lençóis, dizendo o que podemos ou não fazer.

As sociedades ocidentais bebem ainda da inspiração da cultura judaico-cristã, que dissociou amor e sexo, colocando o primeiro num patamar mais elevado e o segundo abaixo, como algo menor e até mesmo sujo, como explanou muito bem o escritor espanhol Juan Goytsolo em El lenguaje del cuerpo.

O amor erótico é impulsivo, destemido, questiona as estruturas, quebra as regras, acredita na força da transformação. Muitos cineastas utilizaram casos loucos para simbolizar o questionamento de sociedades repressoras. No filme 1984 , por exemplo, uma distopia, mostra a desestruturação de uma robótica sociedade por causa de um bilhetinho dizendo "Eu te amo".

No filme Diabo no corpo, do italiano Marco Belocchio, o erotismo à flor da pele foi utilizado para mostrar o caráter lúdico, transgressor e transformador dos desiquilibrados mentais. A pena é que a maioria das pessoas vê apenas o desajuste mental da protagonista e as cenas sensuais, sem muitas vezes perceber o caráter revolucionário que um filme tão descaradamente sexy e anticonvencional esconde.

O condenado Saló ou 120 dias de Sodoma e Gomorra, De Pasolini, nada mais é que uma caricatura medonha da Itália fascista e não o efeito colateral de uma mente doentia.

Em nossa sociedade não conseguimos vislumbrar um juiz de direito com cabelos verdes ou todo tatuado. Medimos o caráter, a competência e a idoneidade dos profissionais pelas roupas que vestem , pelo corte de cabelo etc. Se cabelos curtos, barba feita e ternos elegantes significassem realmente idoneidade, os nossos políticos e empresários seriam grandes exemplos éticos.

Um juiz tatuado e sensual, qualquer pessoa sensual exercendo uma função de alta responsabilidade nos assusta porque identificamos na espontaneidade , no sex appeal uma falta de estabilidade e confiabilidade. Mais uma vez a sexualidade é condenada.

O amor nos dá coragem, nos faz questionar tabus , preconceitos, nos faz nos atirar na linha de frente da vida, correndo riscos, dando a cara a tapa e de certa forma desfocando das questões e interesses puramente econômicos. Pessoas apaixonadas rendem menos profissionalmente porque além de trabalhar , querem amar. Pessoas apaixonadas têm a coragem de apontar os ridículos de determinadas regras que visam apenas uma vigilância tirânica. Pessoas apaixonadas provocam inveja e desconforto.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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