cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Clube da luta e a vitória por meio da dor

Uma das mais belas passagens de Clube da luta é quando a personagem interpretada por Helena Bonham Carter se compara ao vestido que usa, ao dizer que aquela roupa que foi amada intensamente por alguém durante um dia, foi comprada por ela por apenas um dólar. O que realmente desejamos comprar na sociedade de consumo?


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David Fincher surpreende com um olhar dissecador sobre a realidade. Para quem quiser ver as mazelas de uma sociedade controlada pelo consumo e pela solidão, o que resta fazer é olhar atentamente as feridas abertas, expostas pelo cineasta. Clube da luta tornou-se uma obra estigmatizada pelo atentado em um cinema do shopping Morumbi, na cidade de São Paulo, promovido por um psicopata que atirou a esmo nos espectadores do filme.

Na época várias discussões surgiram a respeito da capacidade que o filme tinha de despertar o lado violento de cada um. Muitos estudos apontam para o poder transformatório do cinema no imaginário coletivo e também nas ações e pensamentos individuais. Sabe-se que o cinema promove profundas mudanças na forma de pensar e de agir a longo prazo. Entretanto, Clube da luta é muito mais sobre a sociedade de consumo do que a violência. Fincher devassa uma sociedade em que são os objetos que compramos que nos possui e não nós a eles, como disse o sexy e irreverente alter ego do personagem protagonista.

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Diferentemente da sociedade de consumo, onde se quer acumular dinheiro e todos os tipos de poder, neste filme, os participantes do clube querem perder. Homens atormentados pelos mais variados dramas encontram uma válvula de escape para suas dores perdendo as lutas e não as vencendo, o oposto radical das sociedades capitalistas e competitivas, que dividem as pessoas em vencedoras e perdedoras.

Em Clube da luta ganha quem perde. O filme merece alguns minutos da nossa atenção antes de ser rotulado como uma apologia à violência. A linguagem fragmentada e acelerada, ás vezes incomoda um pouco, mas nos remete claramente ao mundo anunciado nos catálogos de lojas, que vendem promessas de felicidade na forma de eletrônicos, eletrodomésticos e uma série de objetos dispensáveis. Nos remete a uma sociedade em que tudo acontece muito depressa, em que mal temos tempo para questionar o que acontece ao nosso redor, o que acontece a nós mesmos.

Uma das mais belas passagens de Clube da luta é quando a personagem interpretada por Helena Bonham Carter se compara ao vestido que usa, ao dizer que aquela roupa que foi amada intensamente por alguém durante um dia, foi comprada por ela por apenas um dólar. O que realmente desejamos comprar na sociedade de consumo? O romance entre Jack e Marla, por vezes, é intrépido e intenso. Em outros momentos, ele simplesmente a repele como a um objeto que perdeu a graça.

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Ambos se esbarram em grupos de apoio variados e um reconhece no outro um impostor. Como dois viciados químicos, eles se reconhecem naquela bizarra dinâmica de integrar-se por meio da dor alheia. Mais do que se reconhecerem. Eles se incomodam com a presença um do outro pois são o lembrete do simulacro de suas vidas.

Outra cena que merece destaque é quando Marla atravessa a rua despreocupadamente sem olhar para os carros nem apressar o passo por causa deles. Em um mundo tão vazio, viver e morrer são praticamente a mesma coisa já que estamos de certa forma meio mortos mesmo. E é neste sentido que a criação do clube da luta é uma grande sacada: os membros do clube se sentem vivos novamente por meio da dor. Numa sociedade anestesiada para emoções profundas e sentimentos elaborados, a dor parece um caminho redentor.

Clube da luta analisa também o tema de se falar muito e de quase nada se ouvir. Jack, o protagonista interpretado por Edward Norton, afirma participar de grupos de apoio à diversas doenças, por encontrar em tais reuniões pessoas capazes de ouvir o que os outros dizem. Mais que ouvir. Elas realmente se importam, choram, compartilham, emergem para um sentido mais significativo da vida, quando mergulham nas profundezas da dor alheia. A cada leitura, Clube da luta se revela como algo mais delicado e urgente: abaixo do consumo e da incomunicabilidade está a solidão.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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