cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Esse obscuro objeto do desejo ou A mulher e o fantoche

Para manter o interesse de Mathieu sempre vivo, Conchita se nega a manter relações sexuais com ele e limita-se a pequenas carícias como se deixar tocar nos seios.


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Cena de Esse obscuro do desejo: Fernando Rey e Angela Molina ( lado mais espanhol de Conchita)

O filme franco-espanhol Esse obscuro objeto do desejo fechou com chave de ouro a carreira do cineasta Luis Buñuel. Rodado em 1977, esta produção foi baseada no romance francês de Pierre Louys: A mulher e o fantoche.

Mathieu, um homem bem-sucedido de meia idade se interessa sexualmente pela jovem Conchita, uma imigrante espanhola de 18 anos, extremamente ambígua. Os jogos que a moça faz com Mathieu revertem a atração numa paixão cega e servil. Para ressaltar o caráter contraditório de Conchita, a personagem foi vivida por duas atrizes: a espanhola Angela Molina e a francesa Carole Bouquet. Embora não haja uma divisão sistemática das cenas, temos a sensação de que as mais turbulentas ficam para Molina, enquanto que Bouquet interpreta aquele lado mais sutilmente irônico e altivo.

Para manter o interesse de Mathieu sempre vivo, Conchita se nega a manter relações sexuais com ele e limita-se a pequenas carícias como se deixar tocar nos seios.

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Fernando Rey e Carole Bouquet em um dos momentos mais patéticos do jogo que Conchita faz

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Esse obscuro do desejo toca em muitos temas caros ao cinema de Buñuel como a força do acaso, a turbulência política e uma feroz crítica às instituições, além do mergulho na vida íntima e onírica de seus personagens, devassando o mundo dos desejos submersos, revelando o inexplicável, o incontrolável e o irracional por meio de uma linguagem racional e comicamente irônica. Apesar do pesado conteúdo de Esse obscuro do desejo, assisti-lo é uma experiência divertida pois todas as questões são apresentadas de forma fluida.

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O tema principal de Esse obscuro do desejo é a frustração, o desejo não satisfeito. Numa visão platônica, Mathieu continua amando Conchita pois continua a desejando. E ele a deseja pois ele não a possui. Para simbolizar imageticamente a frustração de Mathieu vemos personagens, incluindo o próprio Mathieu, segurando sacos nas costas. O desejo não realizado se transforma num fardo. Ataques terroristas acontecem do nada da mesma forma que Conchita e Mathieu brigam e se reconciliam. O instável e turbulento romance é uma metáfora da própria Espanha que havia se livrado do Franquismo há apenas dois anos.

Quando Mathieu perde a paciência com Conchita após sucessivas humilhações, ele a espanca e neste momento ela afirma acreditar finalmente no amor dele. A incomunicabilidade entre homens e mulheres sempre foi um tema caro a Buñuel desde seu primeiro filme realizado em 1928, Um cão andaluz. Homens e mulheres se amam e se odeiam em proporções iguais, em relações marcadas pela tirania de ambas as partes.

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Esse obscuro objeto do desejo também resgata um elemento de Um cão andaluz, fazendo uma espécie de fechamento da obra de Buñuel. Em seu primeiro filme, foi mostrado o corte de um olho como representação do falo penetrando violentamente o genital feminino. Em Esse obscuro objeto do desejo, na cena final, vemos uma mulher remendando um tecido sujo de sangue. Uma experiência cinematográfica intelectual e lúdica ao mesmo tempo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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