cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Fim de caso: não há nada mais milagroso do que o amor

Tanto Maurice como Sarah encarnam tipos folhetinescos e trágicos. Ela, a mulher linda, sedutoramente melancólica, bondosa e detonadora de paixões avassaladoras. O que seduz os homens em Sarah é a sua desproteção e fragilidade diante do desejo. Maurice é um escritor. Tal fato isoladamente já poderia arremessá-lo numa categoria de fetiche. Sua arte combinada com o caráter ciumento o transforma em quase o ícone do amante ideal.


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Amor e fé talvez sejam os temas mais comoventes que existem. A versão cinematográfica do inesquecível e imensamente sensível romance homônimo de Graham Greene, concilia a profunda paixão entre um homem e uma mulher e a descoberta de Deus em meio ao desespero. Talvez seja esta a única forma ou maneira mais provável de encontrá-Lo: durante uma provação que extrapola as forças e coragem humana.

Ao imaginar que irá perder o homem amado para sempre, Sarah renuncia ao mesmo. Intercede por sua vida perante um Deus que ela crê não existir. A graça é alcançada e é aí que a história começa de fato. Sarah passa por uma verdadeira Via Crucis e quanto mais tenta negar a veracidade do milagre , mais se sente tocada por Deus e imersa em um Amor profundo. Porém, o que sente por Maurice, seu ex-amante, permanece vivo e cada vez mais intenso com a separação forçada.

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Esteticamente belo, Fim de caso conta com uma estrutura narrativa fluida que faz presente e passado, vivido e lembrado se confundirem, por meio de cenas em flashback. Conta também com um elenco primoroso. Julianne Moore encarna magistralmente a adúltera que pode ser considerada uma santa sem sombra de dúvida. Ralph Fiennes é o ator perfeito para interpretar amantes amargurados e obsessivos, com seu olhar profundo e devastado. Stephen Rea encarna com delicadeza e melancolia o marido bondoso, mas incapaz de oferecer um amor que satisfaça uma mulher vibrante e passional como Sarah. Como ela mesma afirma, seu marido prefere o hábito à felicidade. Embora o ciúme obsessivo de Maurice gere problemas entre o casal protagonista, Sarah só poderia amar verdadeiramente um homem capaz de conduzi-la aos labirintos vertiginosos de uma paixão insana.

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Tanto Maurice como Sarah encarnam tipos folhetinescos e trágicos. Ela, a mulher linda, sedutoramente melancólica, bondosa e detonadora de paixões avassaladoras. O que seduz os homens em Sarah é a sua desproteção e fragilidade diante do desejo. Maurice é um escritor. Tal fato isoladamente já poderia arremessá-lo numa categoria de fetiche. Sua arte combinada com o caráter ciumento o transforma em quase o ícone do amante ideal.

Até mesmo os clichês amorosos, como por exemplo, pessoas apaixonadas andando na rua em dias chuvosos e a trilha sonora enfatizando os momentos de emoção, surgem com graciosidade e naturalidade nesta obra visceral sobre tudo de mais profundo e sublime que pode existir no coração humano. O erotismo vem na medida certa: nem asséptico e/ou estereotipado como em produções comerciais nem explícito demais.

Os enquadramentos favorecem uma leitura mais subjetiva do espectador que mergulha no drama de Maurice e de Sarah. Merece destaque a cena em que o casal protagonista se reencontra em um restaurante que costumavam frequentar quando eram amantes. Despeitado, envenenado pelos ciúmes e sem entender o afastamento repentino de Sarah, Maurice descreve o romance de ambos como um caso sem grande importância, um caso frívolo entre dois adultos que queriam se divertir apenas. É daí que vem o título do livro e do filme.

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A expressão Fim de caso sintetiza toda a amargura de alguém que ama intensamente e se vê abandonado, de uma hora para a outra, sem motivo aparente. Outro aspecto bem interessante do filme é o sentimento de Maurice por Deus. Ele acredita firmemente num Deus tirano e termina o livro e o filme pedindo a Deus que o deixe em paz. Extremamente sensível e delicado. Profundamente romântico e revelador.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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