cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Garota exemplar e o desamor como maior afronta

A jovem inteligente e charmosa que tinha sacadas geniais e era capaz de fazer sexo em uma biblioteca pública de repente se torna parte da mobília da casa. Nick a utiliza sexualmente como a uma boneca inflável, sem despi-la, sem olhar em seus olhos, sem lhe dizer nada. Apenas a usa como a um objeto e ainda a acusa de ser uma típica nova iorquina, isto é, uma mulher pedante e intragável que considera todo mundo idiota demais para fazer amizade.



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Garota exemplar de David Fincher é mais uma bofetada bem no meio de nossos rostos politicamente corretos. É uma asquerosa mancha sobre o vestido de festa da nossa sociedade predestinada a felicidade eterna.

Dourar a pílula e contemporizar não são os pontos fortes de Fincher, cineasta de filmes como Clube da luta, A rede social e Seven. Ele bota a mão no saco de lixo mesmo que é a nossa vida social e privada. Em Clube da luta, ele jogou na nossa cara que somos nós os brinquedinhos manipuláveis dos objetos que compramos. Na obra A rede social, ele revelou o pai pouco gentil do Facebook. Em Seven, vomitou a intolerância daqueles que não aceitam o erro alheio embora estejam afundados no erro. Em garota exemplar, ele nos mostra uma verdade muito triste: o amor romântico acaba e nem todo mundo lida bem com isso.

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Considero a primeira metade do filme a mais instigante. A segunda se reverteu em um thriller bem sangrento, louco e emocionante. Porém, é na primeira que muitas pessoas conseguem se identificar com os personagens protagonistas e a passagem de um amor lúdico, saboroso e eufórico para uma relação rotineira, desprovida de imaginação, sinceridade saudável e sexo prazeroso.

O mais estranho e curioso é perceber que tudo aquilo que nos fez desejar profundamente o parceiro é o que nos repele nele posteriormente, depois de uma convivência íntima prolongada. É inegável que a personagem vivida por Rosamund Pike é uma psicopata. E a segunda metade se concentra nisso. Porém, por outro lado, muitas mulheres não psicopatas podem se identificar com o sofrimento e a indignação de Amy diante da frieza do marido e da sua falta de resiliência.

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A jovem inteligente e charmosa que tinha sacadas geniais e era capaz de fazer sexo em uma biblioteca pública de repente se torna parte da mobília da casa. Nick a utiliza sexualmente como a uma boneca inflável, sem despi-la, sem olhar em seus olhos, sem lhe dizer nada. Apenas a usa como a um objeto e ainda a acusa de ser uma típica nova iorquina, isto é, uma mulher pedante e intragável que considera todo mundo idiota demais para fazer amizade.

Se existe um forte senso de crueldade em Amy ao taxar as pessoas idiotas de idiotas, existe também uma coragem de admitir o que pensamos e sentimos e não assumimos. Sim, o mundo é idiota, mas temos que nos encantar com cada baboseira que nos dizem. Temos que engolir goela abaixo o senso comum alheio sorrindo. E o que muitos consideram conhecimento pedante e desnecessário, para alguns é simplesmente o alimento da alma.

Não discorrerei sobre o comportamento patológico de Amy pois este aspecto é claro na obra e opto por me debruçar sobre o mais sutil. Nick cometeu o pior dano que um marido pode causar a uma esposa: deixar de amá-la. Não existe palavra ou atitude que agrida mais uma mulher que o fim do amor, do olhar de fascinação, do sexo apaixonado. Ela deixou de ser a garota exemplar para Nick e por isso se reverteu na garota má para que ele voltasse a enxergá-la e a considerá-la alguém. E como se não bastasse deixar de amá-la, se envolveu com uma garota QI negativo. O que pode enfurecer mais uma mulher inteligente de trinta e poucos anos do que ser trocada por um depósito de colágeno desprovido de neurônios, cultura geral e savoir faire?

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Quando o seu romantismo e sensualidade pouco importam ao marido, resta apenas a Amy vencê-lo pela frieza cruel de sua inteligência psicopata. Se ele não pode olhá-la por sua doçura e capacidade de enfrentar crises a dois, tudo que lhe resta é mostrar ao marido quem tem mais poder imaginativo para escrever o livro da vida com sangue e um brilhantismo mórbido.

Amy se reinventa da mesma forma que seus pais a reinventaram por meio da série de livros "Garota exemplar". A vida da filha comum era readaptada para uma vida de sucessos que rendeu um bom dinheiro e status à sua família. Se a vida real não era vendável o bastante que fosse recriada. Se o marido não a amava o bastante, que tudo fosse reinventado para Amy ganhar o amor fervoroso que apenas as vítimas recebem. Se ela já não podia ser amada por suas sacadas charmosas e sua inteligência sofisticada, que fosse amada por seu abandono, pela abismo da negligência afetiva o qual seu marido a atirou sem se dar conta.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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