cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Nina, O cheiro do ralo ou o cheiro do poder

O cheiro do ralo, filme do cineasta brasileiro Heitor Dhalia nos presenteia com uma estonteante visão ou seria melhor dizer, com um estonteante odor de como o poder, por menor que ele seja, tem a capacidade de transformar pessoas comuns em déspotas. Vemos pequenos ditadores constantemente em todas as esferas da sociedade. E a cada dia que passa , me convenço mais de que o ditado popular “o que vem debaixo não me atinge” é falso. Normalmente o que nos atinge vem de baixo, na forma de uma série de mesquinharias alimentadas pela inveja, ganância, frivolidade e outros sentimentos igualmente deletérios.


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Cena do filme O cheiro do ralo

Cheiro de ralo é algo realmente desagradável. Mas nada comparável ao cheiro do poder. Se aspirarmos com atenção, sentiremos que o poder fede bem mais que um simples ralo. O poder valora as pessoas e coisas, muitas vezes colocando as coisas à frente das pessoas. O poder define o que é bom, o que vale a pena, o que entra, o que sai, o que fica. Tais critérios, na maioria dos casos, não apresentam nenhuma relação com o mérito. É só uma questão de poder mesmo.

O cheiro do ralo, filme do cineasta brasileiro Heitor Dhalia nos presenteia com uma estonteante visão ou seria melhor dizer, com um estonteante odor de como o poder, por menor que ele seja, tem a capacidade de transformar pessoas comuns em déspotas. Vemos pequenos ditadores constantemente em todas as esferas da sociedade. E a cada dia que passa , me convenço mais de que o ditado popular “o que vem debaixo não me atinge” é falso. Normalmente o que nos atinge vem de baixo, na forma de uma série de mesquinharias alimentadas pela inveja, ganância, frivolidade e outros sentimentos igualmente deletérios.

Em O cheiro do ralo, Selton Melo interpreta um homem mesquinho ao extremo, incapaz de amar, de sentir a menor compaixão por quem quer que seja, que concebe a vida como uma transação comercial, com regras ditadas por ele. Ao comprar objetos usados não segue nenhum tipo de critério objetivo, pautado na natureza dos mesmos. É ele quem estabelece o valor dos objetos , adotando como único critério seu autoritarismo sádico. O personagem oferece quantias simbólicas por objetos valiosos e paga regiamente por outros sem nenhum valor. Ele se compraz ao ver as pessoas vendendo junto com seus pertences , a dignidade.

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Em Nina, primeiro filme de Dhalia, livremente inspirado em Crime e castigo, o gosto pelo despotismo já havia sido esboçado por um homem que compra a calcinha da protagonista . A jovem lhe oferece um cd e uma camiseta, mas ele deseja a sua lingerie, o que induz Nina a um gesto de indignidade, despindo-se da roupa íntima no meio da rua , por uns trocados, por desespero.

Tanto em Nina como em O cheiro do ralo, a fotografia nos envolve com uma coloração triste e de aspecto sombrio no primeiro e de sujo no segundo. Os tons cinzentos sobressaem em Nina durante sua jornada psicodélica, enquanto que o marrom impera em O cheiro do ralo, em uma relação simbiótica entre o personagem, os seus dejetos que entopem o ralo e a maneira com que lida com as pessoas.

Para Lourenço , protagonista de O cheiro do ralo, tudo é comprável. Ele se encanta pelas nádegas de uma garçonete que corresponde ao seu interesse. Porém, Lourenço não deseja conquistar a jovem e sim pagar para ter acesso ao seu corpo, mais especificamente às suas nádegas. Rejeita o que ele pode ter de graça, o que lhe é oferecido com generosidade e de coração. Para Lourenço o barato está em comprar . Quando a jovem garçonete resolve “vender” as suas nádegas a Lourenço como se estas fossem um show exótico, o protagonista atinge uma espécie de êxtase, que está mais relacionado à perda da dignidade da moça do que ao prazer de tocar as nádegas que lhe despertaram tanto interesse e desejo.

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O fedor do ralo entupido é uma simbologia de Lourenço, da sua personalidade , da sua postura diante da vida , da forma com que valora as coisas e comercializa as pessoas. O cheiro do ralo é sobre como o poder é capaz de transformar quem o detém em tiranos . O poder de Lourenço é mínimo, mas naquele pequeno universo que domina , faz jus a sua autoridade , da sua possibilidade de ridicularizar , humilhar e desvalorizar as pessoas por meio de seus objetos e necessidade de dinheiro.

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O ralo e Lourenco apresentam uma relação simbiótica

O mesmo comportamento déspota pode ser encontrado em Dona Eulália, a mulher que aluga um quarto para Nina. Ela cobra o pagamento atrasado com um prazer sádico. Cobrar dívidas é uma tarefa desagradável para a maioria das pessoas, que o fazem por necessidade , com certo constrangimento . Porém, para Dona Eulália é mais do que simples fazer valer os seus direitos. Miriam Muniz , com a pronúncia clara e destacada das grandes atrizes do teatro empresta à personagem um ar professoral , que parece ter nascido para cobrar dívidas e criar estratégias que impeçam pequenas fraudes, como tomar leite escondido e pegar qualquer outro alimento na geladeira.

Nina não é exatamente uma mocinha. Irresponsável, potencialmente violenta , perturbada emocionalmente e quebradora de regras por hobbie, a protagonista não é um modelo de comportamento. Seu gosto pela desordem é revelado por meio de uma brincadeira , em um dos poucos momentos hilariantes e leves do filme , quando desarruma a casa de um cego só para fazê-lo perder o controle da situação. Porém, Dona Eulália tiraniza Nina como faria com qualquer moça que por alguma razão não conseguisse pagar o aluguel em dia.

Dona Eulália não é uma justiceira ou moralista que pune a garota irresponsável, que passa as noites se divertindo e não consegue trabalhar no dia seguinte. Dona Eulália pune Nina porque pode puni-la ; porque tem poder para puni-la. Nina não consegue compreender o conceito de propriedade. Ela não entende porque Dona Eulália a proíbe de se servir dos alimentos contidos na geladeira. A jovem só compreende que tem fome e que precisa comer. Oportunista? Nina é uma desajustada tanto emocional como social e não uma mera trambiqueira. Ela não é especialista em dar golpes e nem vive deles. Vive como pode, como consegue em um mundo que já é muito complicado de compreender mesmo para quem tem a cabeça no lugar.

Nina também não se prende aos bens materiais. Abre mão da quantia que roubou de um homem cego com quem passou a noite , para ajudar uma mulher que nem conhece. Retira o dinheiro preso à meia com a simplicidade daqueles que não entendem o vil metal como delimitador de poder.

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Talvez , a mais poderosa e expressiva imagem do filme Nina seja a de Dona Eulália observando uma mosca presa em um copo , até à morte. Como o inseto , Nina é um ser insignificante e incômodo que serve de distração para aqueles que se divertem com o sofrimento alheio.

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Os maus tratos a animais é uma ideia bastante trabalhada pelo cinema e pela literatura . Alguém se lembra de O gato preto , de Edgar Allan Poe? Ou dos insetos perseguidos nos filmes de Buñuel? Em Nina , além da mosca morta por sufocamento , a protagonista coloca na rua o gato de Dona Eulália. O gesto poderia ser encarado como uma forma de libertar o bichano, se não fosse pela fala da própria Nina: “Não é nada pessoal, viu , Maverick. Vai à luta”. Ela sabe que está prejudicando o gato que é bem-tratado por Dona Eulália, mas o faz para se vingar da mulher que a tiraniza. Neste momento, Nina imita o seu algoz, subjugando um ser mais frágil do que ela , reproduzindo um modelo de maldade e de dominação. Nina sonha com um cavalo sendo espancado, imagem que a enche de assombro, provavelmente uma reminiscência de sua infância terrível.

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Nina se assemelha a uma personagem de O cheiro do ralo: uma viciada que oferece quinquilharias a Lourenço. A mulher que no início da trama vende objetos sem valor , passa a vender a visão do seu corpo nu . Ela se desnuda perante Lourenço, mas não se insinua , não se faz atraente . A venda não é total. De alguma forma , ela resiste. Como Nina entende que precisa sobreviver , mas não sabe como. É frágil, desajustada , porém, digna dentro de seus parâmetros. Não é à toa que o reinado de Lourenço tem fim por meio das suas mãos. Lourenço se arrasta , quase morto, até o ralo. Aspira o fedor que produziu a vida toda antes de morrer . Seu último gesto é em homenagem ao cheiro do ralo, ao cheiro do seu ralo, só seu, entupido e fétido.

De uma certa forma , Nina também provoca a morte de sua senhoria. Ao tentar sufocá-la com um plástico, Dona Eulália sofre um infarto e morre . Nina não foi responsabilizada por sua morte , mas com certeza é culpada dela. Em sua mente , Nina assassina Dona Eulália repetidas vezes , de modos variados. Se adotarmos a perspectiva cristã, que considera as intenções , Nina é uma assassina muito antes de Dona Eulália morrer. Nos dois filmes os déspotas são eliminados pelas mãos de desajustadas, pessoas que não compreendem totalmente e nem aceitam as regras estabelecidas pela sociedade.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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