cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O banal como o abismo do amor

Se de repente, um descobre que prefere férias agitadas, debaixo de um sol quente? E o outro quer curtir um friozinho em frente a uma lareira nos Alpes? E se de repente , um descobre que adora sair com gente mais antenada em arte e filosofia e o outro curte mais um bom papo de amenidades? E quando um descobre que os melhores amigos do parceiro são pessoas que curtem jogar conversa fora e o outro percebe que o círculo de amizades do companheiro é formado essencialmente por intelectuais alérgicos a gente que não nunca ouviu falar em Sartre mas sabe quem é Michael Kors?


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Primeiros encontros são fofos e lindos. Pelo menos a maior parte deles. Todo mundo se concentra nos pontos em comum e o outro parece alguém charmoso, interessante, que nunca vai te alfinetar em público ou bancar o mesquinho. O dia a dia, a convivência íntima, que vai muito além do sexo e do comer ovos mexidos juntos numa cama bagunçada com roupas espalhadas por todos os lados, escancara um lado muito complicado da relação.

Acreditamos que divergências políticas ou crenças religiosas diferentes podem detonar uma relação. E podem mesmo. Mas provavelmente uma maneira diferente de lidar com a rotina pode criar dramas muito mais patéticos e enervantes. Um casal pode se estressar diante da visão distinta que teve sobre um filme ou um quadro numa exposição de arte contemporânea. Se for um casal inteligente e respeitoso, discutirá com classe e uma boa taça de vinho para glamourizar a rixa epistemológica.

Cada um pode apresentar o seu olhar sobre Deus e sobre a vida sem perder as estribeiras se existir um mínimo de alteridade e curiosidade inteligente sobre outras interpretações metafísicas. Um bolo de chocolate recém tirado do forno combina muito bem com este tipo de papo porque nos remete à nossa casa, aos nossos pais, a tudo aquilo que recebemos no comecinho da viagem.

Porém, quando o casal começa a se desencontrar por causa da organização da casa, da administração das finanças, da maneira de receber as visitas e como passar o tempo livre, além de decidir o que é mais importante : reformar a casa ou viajar nas férias, o drama começa a perder totalmente a graça e o glamour. E não tem vinho nem guloseima capaz de diminuir a vontade de apertar o pescoço alheio.

Discutir sobre política, artes e religião tem certa dignidade. O que acaba mesmo com o bom humor é aguentar mesquinharias referentes a detalhes insignificantes do dia a dia. Implicar por causa de uma toalha molhada sobre a cama ou fazer cara feia porque quem fez o supermercado esqueceu de trazer um item numa lista de 407 produtos. Intragável também é suportar aqueles dogmas que a pessoa aprendeu em algum momento da vida e quer fazer o outro engolir goela abaixo. Algumas pessoas acreditam que comer batatinha frita de pacote e amendoim na frente da TV é algo normal, mas saborear uma pratada de macarrão é um pecado mortal, passível de inferno sem passagem pelo purgatório.

E quando o espaço compartilhado é pequeno e ambos tem prioridades bem distintas? Um deseja loucamente uma mesa de pebolim e o outro quer arrumar a casa como uma capa de revista? Um adora pegar no sono com a TV ligada e outro ama dormir no mais profundo silêncio? Um sente muito calor e curte ligar o ar condicionado no máximo e o outro tem sinusite crônica?

E quando um sugere dormir em quartos separados para ter mais privacidade e evitar brigas bobas e o outro vê nesta proposta um sinal de desamor e desinteresse sexual? E quando um começa a compartilhar no final de um jantar entre amigos as manias do parceiro como se fosse uma piada frívola? E quando o casal descobre que apesar das afinidades ideológicas, desejam passar o tempo de formas diferentes, com pessoas diferentes , em lugares diferentes?

Se de repente, um descobre que prefere férias agitadas, debaixo de um sol quente? E o outro quer curtir um friozinho em frente a uma lareira nos Alpes? E se de repente , um descobre que adora sair com gente mais antenada em arte e filosofia e o outro curte mais um bom papo de amenidades? E quando um descobre que os melhores amigos do parceiro gostam apenas de jogar conversa fora e o outro percebe que o círculo de amizades do companheiro é formado essencialmente por intelectuais alérgicos a gente que não nunca ouviu falar em Sartre mas sabe quem é Michael Kors?

Se de repente, apesar de pensarem igual sobre a educação dos filhos e a importância de poupar dinheiro e ser cauteloso, um descobre que felicidade vale mais do que sucesso econômico e ser autêntico é mais importante do que ser elegante, mas o parceiro pensa de forma completamente contrária, sacralizando as pessoas mais vazias na opinião do companheiro? E quando um acredita que a verdadeira intelectualidade vem da capacidade de relacionar ideias e o outro se agarra num conjunto de fórmulas prontas e frases de efeito?

Talvez o casamento entre pessoas com crenças e ideologias diferentes não seja mais desastroso do que o enlace de alguém que curte jantar na frente da TV com outro que acredita que elegância é comer diante de uma mesa , usando guardanapos de pano, mesmo que estes estejam mal lavados. Curiosamente falando, o melhor e o pior de nós encontra-se nos detalhes.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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