cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O bebê de Rosemary: o elegante terror de Polanski

Durante toda a trama, mesmo quando já temos certeza dos horrores que cercam a doce e ingênua protagonista, nada de concreto é ofertado ao público. Os mais céticos podem levar muito tempo para aceitar que a jovem Rosemary realmente está encurralada em uma conspiração satânica. Ironicamente, a intenção de Polanski era fazer o espectador acreditar que Rosemary sofria de alucinações e imaginava coisas, por ser o diretor ateu, portanto descrente das figuras de Deus e do diabo.


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Creio que O bebê de Rosemary seja muito mais do que um filme de suspense e terror. A sutileza extrema de sua linguagem o coloca em um patamar artístico. O bebê de Rosemary é um poema cinematográfico tenebroso, onde o pior e mais cruel não é falado nem visto. O filme começa com uma suave canção de ninar que mais se parece a trilha de uma obra romântica. Os diálogos iniciais também são muito tranquilos e cotidianos, embora já forneçam pistas importantes para o desenrolar do filme.

Durante toda a trama, mesmo quando já temos certeza dos horrores que cercam a doce e ingênua protagonista, nada de concreto é ofertado ao público. Os mais céticos podem levar muito tempo para aceitar que a jovem Rosemary realmente está encurralada em uma conspiração satânica. Ironicamente, a intenção de Polanski era fazer o espectador acreditar que Rosemary sofria de alucinações e imaginava coisas, por ser o diretor ateu, portanto descrente das figuras de Deus e do diabo.

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Porém, felizmente, seu intento falhou e acabou produzindo uma das obras mais aterrorizantes e dramáticas sobre o lado oculto do mundo. Creio que Polanski tentou refazer O bebê de Rosemary oito anos mais tarde, por meio do filme O inquilino , uma obra bastante interessante sobre o duplo e a loucura. Apesar de extremamente assustador, O bebê de Rosemary é também um filme muito dramático. Creio que os grandes filmes de terror sejam dramáticos em suas raízes. O terror deriva de uma situação muito triste, que conduz a consequências igualmente sofridas. Basta relembrarmos O iluminado, Carrie, a estranha e O exorcista, que foi baseado em um romance verdadeiramente dramático sobre a perda da fé, sobre a culpa e sobre os inocentes expiando os pecados do mundo.

O final de O bebê de Rosemary nos deixa profundamente tristes e melancólicos porque a personagem chega a uma situação insolúvel. O mais interessante da obra é verificar que sem uma cena violenta ou visualmente assustadora, com rostos desfigurados ou personagens que olham para a câmera com um sorriso macabro ou olhos vermelhos, Polanski fez um cult do terror, que é todo costurado por uma série de coincidências estranhas, pessoas gentis demais e uma gravidez fora dos padrões sem motivo aparente.

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Rosemary com a vizinha Mimi. Nada é o que aparenta ser, mas um clima estranho fica no ar

Merece destaque a cena em que vemos marcas na parede, na casa dos vizinhos de Rosemary, indicando que eles trocaram os quadros que ali estavam por obras mais convencionais. As marcas passam quase despercebidas, o que confere um elemento semi oculto. Como dizia Hitchcock, pior que uma bomba explodindo é a expectativa de que ela vai explodir. Aquelas marcas são um aviso sutil de que o casal esconde algo e esta sensação é terrível. O grande armário que esconde uma porta, que dá acesso a outro apartamento também é um elemento perturbador, embora aparentemente não tão importante em um primeiro momento. Vale ressaltar que o filme foi baseado no romance homônimo de Ira Levin e existe uma versão audiovisual atual bem mais violenta e sangrenta do que a de Polanki, mas também bem interessante.

Se a atual peca pelo excesso de sangue e violência, tem o mérito de mostrar um casal de bruxos muito mais charmoso. A circense Mimi vivida por Ruth Gordon abre espaço para a classuda Margoux interpretada pela linda Carole Bouquet, uma das Conchitas de Esse obscuro objeto do desejo, de Luis Buñuel. Outro detalhe interessante é ver que o bebê de Rosemary é lindo, o que confere um tom mais realista do que a primeira versão que sugere pelo olhar da atriz Mia Farrow uma criança bizarra. Se o anticristo tivesse que vir ao mundo em forma de gente , viria lindo e carismático para seduzir a todos.

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Carole Bouquet como Margoux

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Casal protagonista da versão de 2014: maior desenvolvimento da sensualidade

A cenografia é um item muito relevante neste filme porque o prédio antigo e charmoso, com uma aura de extrema respeitabilidade nos mostra que o pior, muitas vezes, está onde menos esperamos. Outra cena que merece destaque é a que Rosemary fica semi consciente e presencia algo, que ela imagina ter sonhado depois. Os limites entre sonho e realidade e o questionamento da verdade, mesmo que por um breve instante, fornecem a qualquer filme um ingrediente muito valioso: o mistério. Para os apreciadores do gênero, vale a pena conferir !


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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