cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre medo e esperança: duas faces da mesma moeda

A nossa sociedade apresenta a lógica de uma empresa que trabalha com metas. Os vendedores que cumprem as metas ou as superam são premiados. Os que ficam abaixo, punidos. Impomos metas na vida e acreditamos que felicidade é realizar o que nos propusemos. Mais do que isso. Acreditamos que felicidade é acumular conquistas, títulos, prêmios e nos esquecemos de aproveitar o prazer do processo.


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Para Lacan o medo e a esperança eram duas emoções que se complementavam. A esperança é a expectativa de algo muito bom enquanto que o medo é a expectativa de algo ruim. Quanto espero que algo bom aconteça, sinto medo de que o meu objetivo não seja alcançado. Diminuir o nível da esperança reduz o medo também.

Esperar por fatos maravilhosos e recear por tragédias nos roubam do tempo presente pois a vida passa a ser vivida num futuro projetado. Saber viver o presente, o aqui agora é uma das mais complexas artes.

A nossa sociedade apresenta a lógica de uma empresa que trabalha com metas. Os vendedores que cumprem as metas ou as superam são premiados. Os que ficam abaixo, punidos. Impomos metas na vida e acreditamos que felicidade é realizar o que nos propusemos. Mais do que isso. Acreditamos que felicidade é acumular conquistas, títulos, prêmios e nos esquecemos de aproveitar o prazer do processo. Na ansiedade de ver o livro publicado, deixamos de usufruir da alegria de escrevê-lo. Na ansiedade de pegar um diploma, esquece-se de que o mais importante não é o certificado, mas o que se aprendeu de fato.

Na ansiedade dos relacionamentos atuais, no frenesi de encontrar-se sexualmente com quem se deseja, esquece-se do olho no olho, dos dedos entrelaçados, do abraço, de certa ingenuidade que perpassa os primeiros encontros.

Quantas pessoas não lutam durante anos para ter uma boa casa e quando finalmente a conseguem, não usufruem de nada? Nunca tem tempo para um banho de banheira ou de piscina. Nunca tem tempo para receber os amigos. E mal terminam de decorar a casa, já pensam em comprar outra maior como se o gozo mesmo estivesse no simples ato de dizer para si mesmo: Eu posso. Eu consigo.

Quantas pessoas não lutam para conquistar o amor de alguém e logo em seguida perdem o interesse porque sentem necessidade de correr atrás de novas conquistas em vez de viver a ternura de uma relação? Quantas pessoas não sonham com uma viagem por anos e quando chegam no destino desejado, perdem mais tempo fazendo planos para uma outra viagem ao invés de viver o momento? Quantas pessoas não sonham e lutam para ter um filho, biológico ou adotivo, e quando finalmente conseguem entregam à criança aos cuidados de terceiros?

Na vida tudo é importante e desimportante ao mesmo tempo. Tudo tem o seu encanto, mas nada é realmente essencial. Quando pensamos ou dizemos "Tal fato precisa acontecer" conferimos a um emprego, a uma oportunidade de lazer, a um possível relacionamento o poder total de definir a nossa vida, de fazer dela algo maravilhoso ou terrível.

O problema não está em desejar. Sem desejo estamos atirados no mais profundo e escuro poço. Porém, todo desejo obsessivo nos rouba a energia e a capacidade de vermos e aproveitarmos o que já temos. Todo desejo obsessivo é uma redução das possibilidades da vida, são olhos fechados para o inusitado, para o encontro imprevisto e improvável. Todo desejo obsessivo é um olhar limitado, embaçado. Se aposto todas as fichas no emprego X, por exemplo, ignoro todos os outros que podem surgir. Quando não alimentamos grandes metas, a vida acaba por nos surpreender por meio de pequenos gestos.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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