cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Somos todas um pouquinho Lily Braum

Muitas vezes queremos coisas conflitantes e todas ao mesmo tempo, aqui e agora, please! Com muito gelo, mas sem agredir a garganta. Com muito chilli mas sem incendiar a boca. Com muita emoção, mas sem bagunçar a rotina. Como perder o caminho de casa depois de ter fechado a conta do analista? Como perder o chão depois de meses aprendendo a pisar em terra firme?


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A vida é paradoxo. E toda escolha envolve muitas renúncias, como diria Sartre. Abrir uma porta significa deixar outras fechadas. Passar por uma porta implica em desistir da ideia de pular a janela ou simplesmente deixar-se ficar onde se está.

Muitas vezes queremos coisas conflitantes e todas ao mesmo tempo, aqui e agora, please! Com muito gelo, mas sem agredir a garganta. Com muito chilli mas sem incendiar a boca. Com muita emoção, mas sem bagunçar a rotina. Como perder o caminho de casa depois de ter fechado a conta do analista? Como perder o chão depois de meses aprendendo a pisar em terra firme?

Queremos uma série de conquistas tradicionais e nos comovemos com um pedido de namoro ou casamento mais tradicional, por mais que saiamos por aí dizendo que esta coisa de noivar é cafona e fora de moda. Sim, é cafona e fora de moda. Mas lá no fundo, é fofo.

Queremos construir uma vida a dois com uma boa dose de organização, coerência e coesão para finalmente amadurecer e virar alguém focado, com metas bem estabelecidas.

Queremos um parceiro fixo para fazer sexo, queremos alguém que vá sábado à tarde no cinema conosco, queremos alguém para dividir uma boa garrafa de vinho ou simplesmente duas canecas de cerveja depois do cinema.

Queremos carinho, cumplicidade. Queremos alguém que mesmo que não fale nada, implique com o comprimento da nossa saia pois nos acha um tesão. Queremos alguém que conte sobre seus sentimentos. Alguém que conte na vida da gente.

Queremos quebrar a cabeça para decidir o piso da sala e se faremos um escritório ou uma sala íntima no quarto extra da casa. Queremos assistir a um filminho juntos em casa, sem pensar em nada, enquanto comemos pipoca e assamos muffins. Queremos usar calcinhas confortáveis para dormir sem preocupação pois aquela fase tórrida do romance já passou.

Mas por outro lado, queremos também uma mão boba e quente nos momentos mais inoportunos. Queremos ser empurradas contra os muros da vida e desafiadas a perder a cabeça nem que seja por alguns minutos. Queremos perder a noção do tempo, a noção do ridículo. Queremos encher a cara num barzinho mixuruca , olhos nos olhos, todas as possibilidades jogadas no balcão ao lado da garrafa de vinho barato. Queremos ser tiradas para dançar de rosto colado, ouvindo obscenidades de amor ao pé do ouvido. Queremos fazer amor no meio da tarde, em pleno expediente. Queremos a adrenalina de um "amor" novo. Queremos estraçalhar este "amor" novo como uma garotinha que arrebenta a caixa em que se encontra a sua boneca.

Como Lily Braum da célebre música de Chico Buarque, muitas vezes, trocamos a alegria de um amor colorido sonorizado por um jazz, servido junto com uma taça de espumante por um amor café com bolinho de chuva. Ambos são bons, cada um à sua maneira. Mas ambos são imperfeitos porque são incompletos e porque somos gulosas e mimadas e queremos o que não temos. A amante inveja as cafonas e irritantes festas familiares que seu amado passa com a esposa. A esposa inveja o sexo rápido na hora do almoço. E por aí vai, entre Lilys antes e depois do casamento, como diria Chico Buarque, vamos nos desmilinguindo todas ao som do blues...


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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