cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A escolha pela ignorância

Os ignorantes por opção se revoltam quando se deparam com um olhar inusitado, pois todo olhar inusitado é uma desconstrução e desconstruções são trabalhosas. Desconstruções exigem que assumamos nossas fragilidades e lacunas. Não é à toa que ignorantes nunca tem dúvidas e nunca fazem perguntas. Ignorantes tem sempre uma resposta fechada e certeira na ponta da língua afiada.


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Cena do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut

No filme Fahrenheit 451 , de François Truffaut, baseado no romance homônimo de Ray Bradbury, os bombeiros de uma sociedade distópica não apagam incêndios. Pelo contrário. Eles promovem incêndios de livros, pois o governo afirmava que livros entristecem as pessoas e que bom mesmo era passar o dia todo vendo programas bem rasos de TV.

Mesmo que instintivamente, muitas pessoas optam pela ignorância como meio de se protegerem das dolorosas consequências do conhecimento. Cada um tem o direito de viver da maneira que lhe parece mais confortável.

Por outro lado, toda ignorância opcional é uma realidade muito triste. O que faz seres inteligentes e pensantes optarem pela ignorância? O que faz seres com profunda capacidade de relacionar, de transformar, de criar, viverem como meros robôs que repetem conteúdos transmitidos sem senso crítico, sem nenhum tipo de reelaboração mental? O que faz seres criativos, cheios de potencialidades intelectuais acreditarem que aprender meia dúzia de técnicas e teorias para exercer uma profissão lhes basta?

Infelizmente, muitas pessoas só conseguem conversar sobre sua profissão e falar de relacionamentos amorosos sob um viés superficial. Ou ainda, se restringem a repetir matérias fúteis sobre valores cruéis impostos pelas esferas de poder da sociedade. Em nossa sociedade é inaceitável não saber que o modelo da saia X está na moda, mas considera-se extremamente natural alguém não conhecer absolutamente nada sobre temas que extrapolam a esfera da sua área profissional.

A superficialidade e a ignorância nunca estiveram tão em alta. Mas pior do que uma mente que opta de bom grado pela mediocridade, é uma mente que opta pela mediocridade e se considera ativa e inteligente. Infelizmente, muitas pessoas ignorantes por opção e por princípio são aquelas que mais se sentem no direito de transmitir publicamente opiniões pouco embasadas ou embasadas em preconceitos e senso comum.

Os ignorantes por opção são os que mais se agarram às tradições sem entender os motivos reais das tradições e convenções. Os ignorantes por opção não conseguem transmitir um ponto de vista sem uma boa dose de agressividade, pois como lhes faltam argumentos, necessitam agredir quem expressa uma opinião diferente. Ignorantes por opção são analfabetos funcionais. Conseguem ler textos, mas não os entendem em suas entrelinhas e ambiguidades. E tudo aquilo que foge do óbvio parece errado e absurdo.

Os ignorantes por opção se revoltam quando se deparam com um olhar inusitado, pois todo olhar inusitado é uma desconstrução e desconstruções são trabalhosas. Desconstruções exigem que assumamos nossas fragilidades e lacunas. Não é à toa que ignorantes nunca têm dúvidas e nunca fazem perguntas. Ignorantes têm sempre uma resposta fechada e certeira na ponta da língua afiada.

Muitas vezes, pessoas que se definem como religiosas são as que mais julgam, contrariando tudo aquilo que elas afirmam mais acreditar. Muitas pessoas que nunca viram um filme de arte na vida, adoram "dar aulas" de cinema. Muitas pessoas que nunca leram um livro fora da área da sua profissão e nunca ouviram falar em nenhum escritor de peso ou filósofo adoram analisar a arte produzida por outras pessoas que passaram anos estudando e produzindo.

Profissões mais artísticas ou lúdicas sofrem com esta realidade. Muita gente se sente no direito de questionar sem embasamento o trabalho de técnicos esportivos ( principalmente de futebol no Brasil), de editores de revistas, autores de novelas, críticos de arte, pesquisadores das áreas de Humanas, de artistas de um modo geral. Por serem áreas mais lúdicas e criativas, muitas pessoas se sentem no direito de dizer uma série de baboseiras sem nenhum tipo de constrangimento e sem se embasar em algum pensador da área que sustente e respalde a sua fala.

Ninguém está livre de falar uma bobagem sobre uma área do conhecimento que não domina. Faz parte da natureza humana cair em esparrelas conceituais. O problema é tornar a queda sua mais banal rotina.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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