cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Alguns pensamentos do senso comum bem irritantes

O último exame do Enem foi um deprimente exemplo de como o nosso país está abarrotado pela ignorância convicta. Um membro do poder judiciário nomear uma das maiores intelectuais da História do Ocidente de "baranga francesa" ( a escritora e filósofa Simone de Beauvoir) em sua página do Facebook entre outros disparates promovidos por pessoas que ocupam posições de destaque e poder em nosso país desperta o desejo de se jogar num quarto escuro e chorar a tarde inteira ou simplesmente se auto exilar.


o-SELFIE-facebook.jpg

Todo tipo de simplificação extrema pode criar rótulos perigosos que geram preconceitos. Como seres humanos, somos limitados e uma vez ou outra caímos numa esparrela chamada generalização. Não tem muito jeito. O problema é quando generalizar e reduzir se torna o lema de vida e as pessoas começam a fazê-lo com extrema naturalidade, sem nenhum tipo de constrangimento.

O último exame do Enem foi um deprimente exemplo de como o nosso país está abarrotado pela ignorância convicta. Um membro do poder judiciário nomear uma das maiores intelectuais da História do Ocidente de "baranga francesa" ( a escritora e filósofa Simone de Beauvoir) em sua página do Facebook entre outros disparates promovidos por pessoas que ocupam posições de destaque e poder em nosso país desperta o desejo de se jogar num quarto escuro e chorar a tarde inteira ou simplesmente se auto exilar.

Mas o ocorrido no Enem foi apenas uma lente de aumento em cima de uma triste realidade que presenciamos todos os dias. Estudantes desestimulados, desinteressados e desinteressantes. Professores autoritários, enfadonhos e obsoletos. Profissionais desapaixonados. Pessoas que substituem afeto e se valoram por sapatos ou carros.

Mas vamos aos pensamentos? Levantei algumas frases razoavelmente comuns que me incomodam bastante e que talvez façam os leitores se lembrarem de muitas outras.

1. Tachar pessoas que tentam suicídio de egoístas e/ou fracas. Ninguém sabe o que acontece com o psicológico de uma pessoa quando tenta cometer o suicídio. Ninguém ou quase ninguém de fato conhece a profundidade e a extensão da dor de quem tenta se matar. A maioria das pessoas têm muita piedade por aqueles que sofrem de males físicos e quase nenhuma por aqueles que padecem por anos dos males da alma.

2. Dizer que depressão se cura com um bucho de roupa para lavar e que estresse é frescura. Um braço ou perna quebrada justifica o afastamento de um profissional do seu trabalho. O estresse que é uma doença bem séria que pode gerar outras mais graves ainda como a depressão ou até mesmo um infarto ou AVC é visto como um ataque de frescura por muitas pessoas. Não, depressão não se cura lavando roupa, a não ser que o deprimido seja apaixonado por lavar roupa. Depressão se cura com terapia, medicamentos, amor e compreensão. O mais curioso é que a nossa sociedade é moldada para gerar hordas de deprimidos e quando as pessoas deprimem, são julgadas.

3. Dizer que todo filme ou livro de arte que toca em temas tabu ligados à sexualidade são nojentos. É melancólico tentar comentar com alguém um filme como "A comilança" de Marco Ferreri ou "Saló ou 120 dias em Sodoma", de Pasolini com alguém e nem ter tempo de falar sobre o caráter metafórico dos filmes porque antes disso, o interlocutor sabe tudo já faz uma cara de quem vai vomitar.

4. Dizer que todo homem é igual.

5. Dizer que quem tem fé em Deus supera com facilidade todos os dramas da vida. Dizer que quem acredita em Deus não tem motivos para ficar triste. Ok. A fé dá forças para superar fases complicadas, mas julgar quem sofre me soa cruel.

6. Dizer que conhecimento intelectual não tem utilidade. Se as pessoas se intelectualizassem mais e dedicassem mais tempo e energia à reflexão profunda, possivelmente, as pessoas teriam uma qualidade de vida mais significativa e expressiva.

7. Dizer que homossexualidade é escolha para chocar e que bissexual é indeciso.

8. Dizer que toda mulher tem vocação para ser mãe e que pessoas que não desejam casar são estranhas.

Enfim, a lista de pensamentos do senso comum é extensa e cria muitas antipatias entre as pessoas, construindo mais muros do que pontes. Livrar-se totalmente de preconceitos é algo bastante complexo, mas na medida do possível, deveríamos refletir sobre nossos pontos cegos e tentarmos nos colocar do lugar do outro antes de criticá-lo e julgá-lo. Ninguém é obrigado a gostar ou simpatizar com ninguém. Ninguém é obrigado a concordar com a visão de mundo de ninguém. Mas o mínimo que podemos fazer por uma convivência mais civilizada e interessante é respeitar o que difere do nosso pensamento ( contanto que as diferenças não prejudiquem ninguém) e tentar abrir a mente para novos olhares. Uma mente fechada em si mesma é uma mente que não cresce nem se desenvolve. Fala-se muito em corpos perfeitos, mas estamos muito carentes de mentes poderosas numa sociedade assolada pela ignorância, pela ganância, pela corrupção, pelo consumismo, pela futilidade, pelo individualismo exagerado.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Sílvia Marques
Site Meter