cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Precisamos falar sobre o Kevin: 507 temas tabu num livro profundamente angustiante

Além de mergulhar numa complexa e complicada relação entre mãe e filho, "Precisamos falar sobre o Kevin" trabalha com dois temas muito importantes: o mito do amor materno como algo natural e uma profunda e feroz crítica ao American way of life. A autora mostra Kevin como produto de sua cultura altamente competitiva em que chacinas em escolas é algo relativamente comum. Uma cultura que transforma tudo em espetáculo por falta de um sentido maior, para preencher o vazio. Kevin mergulha neste vazio conscientemente, compreendendo que seu ato não servirá para hastear nenhuma bandeira. Seu gesto é de um niilismo puro e paralisante.


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O best-seller "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lionel Shriver, adaptado para o cinema em 2011 sob a direção de Lynne Ramsay, vai muito além da psicopatia de Kevin, um garoto que assassina 11 pessoas, entre elas, seu pai e irmã.

A psicopatia de Kevin é inquestionável e o garoto extremamente inteligente fornece sinais desde cedo sobre sua genialidade voltada para o mal. O livro apresenta uma série de episódios extremamente maldosos que mostram todo o poder persuasivo de Kevin para causar desastres sem ser descoberto. O mais interessante é que nenhuma situação é claramente descrita e tem-se a sensação de que estamos tateando no escuro e deduzindo o que não podemos ver a partir de milhares de pecinhas de um louco quebra-cabeças junto com Eva, mãe de Kevin, que mais intui do que sabe.

Narrado em primeira pessoa, num estilo epistolar e extremamente intimista, mergulhamos nas obscuridades de Eva, uma mulher extremamente independente e eternamente insatisfeita, sempre em busca de novas realizações e prazeres. De fato, Eva nunca sonhara em ser mãe, mas arrastada pelas forças das circunstâncias, engravida. Ter um filho parece ser a melhor forma de crescer. Pelo menos é o que as pessoas dizem e esperam de casais bem estabelecidos. Franklin, seu marido e amado, também deseja muito ter um filho e desde sua gravidez, Eva irrita-se com Kevin de certa forma. Com receio de causar algum dano ao bebê , Franklin fiscaliza os menores gestos da esposa, fazendo com que ela se sinta uma prisioneira.

Quando Kevin nasce, diferentemente do que outras mulheres afirmavam, Eva não sente emoção alguma ao ver o filho. A cidadã do mundo fica restrita ao ambiente doméstico e a relação com seu filho passa por diversas fases, todas muito complicadas.

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Talvez, uma das cenas mais impactantes e simbólicas é quando Eva cola mapas nas paredes de seu escritório para se lembrar da vida que teve antes de Kevin nascer. Kevin destrói seus mapas. Destruir o que os outros amam é um traço marcante em Kevin, já que ele mesmo não consegue amar nada apaixonadamente. Por outro lado, podemos encarar a destruição dos mapas como um acesso de ciúmes. Kevin sente ciúmes do que os mapas representam. Os mapas simbolizam o desejo de sua mãe de partir para longe dele.

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Reminiscências de uma vida festiva, sem filhos

Outra cena muito marcante, quando Kevin é ainda um bebê que chora o dia inteiro, é ver Eva parada na rua com Kevin no carrinho, perto de uma britadeira. O som que enlouquece qualquer pessoa soa como música para Eva que fecha os olhos e respira aliviada por alguns segundos pois não consegue ouvir o choro de Kevin.

Kevin é claramente dissimulado diante do pai, o que torna Eva ainda mais enfurecida. Mas se por um lado, Kevin reserva o pior do seu humor cáustico à mãe, é com ela que ele sente maior afeto, pois apesar de brutal, a relação de ambos é verdadeira. Eva sabe quem é seu filho. O pai ama um personagem. Em uma cena , Eva ao lavar o rosto, mergulhando a face numa pia cheia de água , podemos ver o rosto de Kevin. Em outro momento, quando Kevin lava a face, podemos ver Eva. Existe uma relação simbiótica entre ambos. Embora Eva não seja uma psicopata como Kevin, ela não consegue amar o seu filho desde o seu nascimento. Independente de Eva ser responsável pelos atos brutais e perversos de Kevin, ela se sente culpada pela conduta do filho pois nunca o amou.

Além de mergulhar numa complexa e complicada relação entre mãe e filho, "Precisamos falar sobre o Kevin" trabalha com dois temas muito importantes: o mito do amor materno como algo natural e uma profunda e feroz crítica ao American way of life. A autora mostra Kevin como produto de sua cultura altamente competitiva em que chacinas em escolas é algo relativamente comum. Uma cultura que transforma tudo em espetáculo por falta de um sentido maior, para preencher o vazio. Kevin mergulha neste vazio conscientemente, compreendendo que seu ato não servirá para hastear nenhuma bandeira. Seu gesto é de um niilismo puro e paralisante.

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A bandeira dos Estados Unidos após os assassinatos reforça a crítica à cultura americana

Franklin, o pai de Kevin, também é uma espécie de índice da cultura americana: otimista, lutador e simplório. Mas Kevin escolhe para sua plateia, Eva. Kevin tem gosto exigente e opta pelo senso de realidade nu e cru da mãe. Tanto Eva como Kevin tem forte senso de crueldade e para Kevin o melhor gesto da sua mãe foi quando ela o agrediu fisicamente. Eva e Kevin não suportam embustes e falsos otimismos. Mais do que isso: nas entrelinhas do romance, pode-se sentir que talvez para Kevin a única maneira de obter um pouco do amor materno era eliminar as pessoas que ela realmente queria bem: o marido e a filha caçula. Quando não restasse nada mais a Eva, ela precisaria de algum modo, em alguma medida, amá-lo.

Um livro profundamente denso e perturbador, que mais levanta dúvidas do que responde perguntas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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