cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Thelma e Louise : um ensaio sobre a imprevisibilidade da vida

O suicídio normalmente é visto como um mero gesto de desespero ou cansaço da vida. Thelma e Louise precisaram escolher, como Sartre diria, entre uma opção ruim e outra pior. Morrer não era o ideal e desejado, mas era o menos pior naquela situação. O suicídio aparece como um gesto de rebeldia. Thelma libertara-se do marido opressor por um final de semana e depois de entrar em embate com a vida, numa luta visceral corpo a corpo, em que o seu melhor e pior vieram à tona, aceitar ser presa, simbolicamente, seria o mesmo que regressar ao casamento.


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O filme Thelma e Louise, produzido em 1991, e comentado por 11 livros de cinema a cada dez livros que lemos, foi analisado por muitas pessoas como uma ode ao feminismo. Não nego o caráter sexista do filme, em que os crimes cometidos por mulheres vem à tona muito mais rapidamente e com consequências muito mais nefastas.

O filósofo e professor argentino Julio Cabrera analisou Thelma e Louise sob o viés sartriano, defendendo a ideia de que somos responsáveis por nossas escolhas e todo ato de liberdade tem um preço a se pagar.

Podemos também ver Thelma e Louise como um signo da imprevisibilidade da vida. Em um simples final de semana, duas mulheres comuns, uma garçonete cuca fresca e uma dona de casa submissa se tornam criminosas procuradas pela polícia. Em um final de semana elas vivem muito mais experiências e riscos do que viveram uma vida inteira. Em um final de semana apenas elas descobrem muito mais a respeito delas mesmas.

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Thelma e Louise antecipam a era dos selfies, reafirmando suas personalidades subjacentes por meio de uma foto que dá início a viagem reveladora

A garçonete independente mostra-se muito mais certinha do que a dona de casa que sai de viagem com a amiga e deixa um bilhete para o marido, pois não tem coragem de dizer pessoalmente que vai passar dois dias fora e que ele precisará esquentar a comida que ela já deixou pronta.

Louise quer simplesmente dar um gelo no namorado. Nada demais. Thelma quer viver. E como costuma afirmar o ditado popular, quem nunca comeu melado se lambuza. Em sua ânsia de viver em um final de semana tudo aquilo que lhe foi negado, Thelma coloca Louise e ela mesma em situações bastante complicadas.

Como todo road movie, Thelma e Louise mostra a viagem objetiva como metáfora da viagem interior dos personagens. Louise vinga-se do seu agressor matando o violador de Thelma. Quando ela atira no homem que estupra Thelma, simbolicamente, ela atira no homem que a atacou em um passado remoto, impedindo-a emocionalmente de voltar ao estado do Texas.

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Por outro lado, Thelma descobre um lado muito ativo e transloucado que estava submerso pela rotina do casamento e pelo temor ao marido. Enquanto Louise é arrastada pelas circunstâncias, Thelma assume o controle da situação e mesmo que de forma caótica, ela toma as grandes decisões, incluindo o suicídio final. Louise dirige, mas Thelma faz a proposta com o olhar. Mas vale ressaltar que elas não jogam o carro de um penhasco qualquer. Elas atiram o carro no Grand Canon, o que confere um caráter grandioso ao gesto de ambas.

O suicídio normalmente é visto como um mero gesto de desespero ou cansaço da vida. Thelma e Louise precisaram escolher, como Sartre diria, entre uma opção ruim e outra pior. Morrer não era o ideal e desejado, mas era o menos pior naquela situação. O suicídio aparece como um gesto de rebeldia. Thelma libertara-se do marido opressor por um final de semana e depois de entrar em embate com a vida, numa luta visceral corpo a corpo, em que o seu melhor e pior vieram à tona, aceitar ser presa, simbolicamente, seria o mesmo que regressar ao casamento.

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Uma das cenas mais interessantes do filme, embora pouco realista, é quando as protagonistas questionam o caminhoneiro metido à "sedutor" a respeito da sua abordagem grosseira e logo em seguida explodem o caminhão. Aquele homem foi de certa forma escolhido como bode expiatório e uma espécie de ícone de todos os homens que as agrediram ou as subjugaram de alguma forma. Ao questioná-lo e explodir seu meio de trabalho, simbolicamente, elas escolhem romper com todo tipo de opressão.

O filme descreve tipos masculinos sórdidos, que servem como ícones das modalidades de exploração e abuso que podem infligir às mulheres. O marido, representa o típico homem autoritário. O estuprador, o facínora. O ladrãozinho sexy , o tipo que lesa sorrindo. O caminhoneiro, o idiota inconveniente.

Por outro lado, existem dois personagens masculinos que tentam ajudá-las: o namorado de Louise e o policial interpretado por Harvey Keitel. O detetive lamenta a sorte das moças e se refere a elas carinhosamente, como meninas. Elas negam a sua ajuda pois não confiam no mundo masculino.

Por outro lado, talvez, elas não quisessem realmente ajuda alguma. Talvez, numa leitura mais subjetiva e anticonvencional, elas quisessem realmente deixar tudo para trás num grand finale. A vida é imprevisível e em um momento tudo pode mudar para melhor ou para pior. Não temos controle sobre os fatos que nos induzem a determinadas escolhas. Talvez, todas as peripécias e desastres pelos quais Thelma e Louise passaram, fossem muito mais do que acontecimentos trágicos, mas sim os acontecimentos necessários para elas se tornarem elas mesmas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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