cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Nostalgia e o papel da arte em nossas vidas

Nostalgia nos faz pensar acima de tudo no papel das artes em nossas vidas. Nos faz pensar que as ideias expostas pelo artista , quando transformadas em uma obra , ultrapassam o que o artista idealizou em princípio. O artista não tem controle total sobre sua criação e o olhar de quem a aprecia fornecerá nuances diferentes ao proposto inicialmente.


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Nostalgia, de Andrei Tartovski é um filme de 1983 que mostra o mundo interior de um poeta russo que viaja à Itália para fazer uma pesquisa sobre um compositor conterrâneo que estudou na Itália. Nostalgia , como toda a obra de Tartovski não se preocupa em narrar fatos. É um filme sobre a subjetividade das personagens e as imagens servem para desnudar o mundo íntimo das mesmas e a própria interioridade do cineasta.

Nostalgia mergulha na inadequação do povo russo em outras culturas. Mas muito mais do que mostrar uma grande dificuldade de viver em terras estrangeiras, Tartovski investiga o sofrimento de não se adequar ao mundo como um todo. O próprio artista afirmava admirar pessoas não adaptadas a vida prática, competitiva.

As imagens são de uma melancolia profunda e nos transportam para as nossas próprias nostalgias e inadequações com o mundo exterior.

Os personagens caminham solitariamente , meio que sem rumo, como se buscassem a si mesmas. O abuso de espaços externos nos remetem à questão do mistério, do insondável. O quarto de hotel onde o protagonista reside , grande e com pouca mobília, nos faz pensar em nosso próprio vazio. O poeta melancólico demonstra ternura por um cachorro, mostrando como podemos nos satisfazer na profundidade dos vínculos emocionais aparentemente mais simples.

O poeta russo é acompanhado por uma tradutora inquieta, interpretada pela magnética Domiziana Giordano. Em uma das poucas cenas explosivas do filme, ela faz um monólogo para o poeta , desnudando todo o seu desespero por amar sempre os homens errados. O poeta a escuta passivamente e ao fim emite poucas palavras assustadas , considerando-a uma louca. Este momento me fez pensar em Antonioni e em sua percepção de que as mulheres , às vezes, parecem loucas por serem mais lúcidas do que os homens.

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Um personagem de vital importância no filme é Domenico, um homem considerado louco pela maioria das pessoas , mas alguém muito consciente e especial para o cineasta. Num mundo cego como o nosso, quem enxerga demais é motivo de preocupação.

Nostalgia nos faz pensar acima de tudo no papel das artes em nossas vidas. Nos faz pensar que as ideias expostas pelo artista , quando transformadas em uma obra , ultrapassam o que o artista idealizou em princípio. O artista não tem controle total sobre sua criação e o olhar de quem a aprecia fornecerá nuances diferentes ao proposto inicialmente.

A arte é uma poderosa ferramenta de expressão tanto do artista como daquele que a aprecia, pois ela nos permite fazer conexões diversas, tanto no âmbito intelectual quanto afetivo, reconfigurando as nossas estruturas internas e nos fazendo ressignificar valores , conceitos e experiências. Seu olhar é apenas um ponto de partida para uma viagem interna e extremamente particular de cada espectador.

Em uma sociedade cada vez mais pragmática, competitiva e materialista, em que o conhecimento , principalmente o autoconhecimento são colocados em um segundo plano, a arte parece coisa pouco importante. Por fim, acabamos nos contentando com pseudo manifestações artísticas que nada mais são que produtos comerciais disfarçados de arte.

A arte não é necessariamente bela. Ela pode ter uma utilidade sim. Mas não é o seu objetivo principal. A arte vai muito além da função decorativa. A arte não deve acalmar, relaxar. A arte deve nos ferir por dentro para que a partir das feridas provocadas por ela , possamos nos deparar com as nossas próprias fissuras e descobrir em nós mesmos , por meio da arte , caminhos alternativos e pessoais para construir uma existência cada vez mais autêntica.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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