cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Quando a brutalidade vira poesia

Sim, existe beleza no caos, no desespero. Existe amor entre os mais brutais criminosos. Sim, existe lealdade e valores nobres no meio da barbárie. Sim, existe poesia nas realidades mais nuas e cruas. Vamos falar sobre alguns destes filmes?


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Cena de O poderoso chefão

Alguns cineastas conseguem transformar a realidade do submundo, cheia de momentos violentos, em poesia. Tais filmes se tornam célebres e independente do gosto pessoal de cada espectador , é muito complexo manter-se indiferente a estas obras que revelam com maestria as variadas nuances da vida.

Sim, existe beleza no caos, no desespero. Existe amor entre os mais brutais criminosos. Sim, existe lealdade e valores nobres no meio da barbárie. Sim, existe poesia nas realidades mais nuas e cruas. Vamos falar sobre alguns destes filmes?

1. O poderoso chefão, de Francis Ford Coppola mostra com extrema sensibilidade e até mesmo delicadeza os horrores ocorridos em uma família mafiosa. Don Vito Corleone é um criminoso sim, mas não deixa de ser um pai atencioso, um avô carinhoso e um amigo leal a quem lhe dedica sincero afeto e respeito. Inclusive , o título original do filme é "O padrinho". Basta beijar-lhe sua mão e tratar-lhe como um ente querido para obter de Corleone a sua mais pura amizade.

Apesar das cenas sangrentas do filme , podemos nos deparar com muitos aconchegantes momentos familiares. Inclusive , Don Corleone morre placidamente de um ataque cardíaco, brincando com seu netinho. Ele não falece como um mafioso, mas como um simples e afetuoso homem de família.

Por outro lado, merece destaque o personagem vivido por Al Pacino, filho de Don Corleone. O rapaz que sempre repudiara os valores familiares e nunca desejara de fato integrar-se à máfia , torna-se o mais cruel e frio de todos os criminosos de sua família , após a morte da sua linda esposa italiana e de seu irmão querido. Enfim, o filme acaba defendendo a ideia de que não podemos fugir de nós mesmos e nem das heranças familiares. E quanto mais negamos determinadas tendências, mais ferozmente nos entregamos a elas no futuro.

2. Scarface , de Brian de Palma é um filme bem mais duro do que O poderoso chefão. Ele mergulha na crueza do submundo de forma bem menos poética. Além dos crimes brutais cometidos pelo personagem protagonista , também interpretado por Al Pacino, nos deparamos com temas bastante pesados como o desejo incestuoso e relações conjugais desprovidas de afeto. Tony Montana é verdadeiramente apaixonado por sua irmã , mas mora com uma linda mulher viciada , interpretada por Michelle Pheiffer. A convivência dos dois começa a deteriorar rapidamente , servindo de metáfora da própria derrocada de Tony. Sua casa suntuosa , mas de gosto bastante duvidoso também pode servir como metáfora da própria vulgaridade e fragilidade do sucesso que ele obteve por meio da criminalidade.

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Cena de Scarface

3. Era uma vez na América, de Sergio Leone é um longo e belíssimo filme sobre a formação da máfia italiana nos Estados Unidos , revelando de forma extremamente violenta e poética simultaneamente o desenrolar de um amor que nunca se concretiza por parte do personagem protagonista vivido por Robert De Niro. Meninos esfomeados de rua começam a cometer pequenos delitos até se tornarem criminosos poderosos e importantes. E durante toda a jornada do protagonista , paira uma imagem idílica: a linda e distante bailarina que ele ama desde a sua adolescência. A trilha sonora melancólica e profunda associada ao intimismo perturbador de um romance que nunca chega a se concretizar, cria um contraponto poderoso com a realidade brutal da máfia. Um filme extremamente violento e romântico ao mesmo tempo.

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Cena de Era uma vez na América. O personagem protagonista relembra na maturidade quando vigiava a menina amada dançando balé.

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Cena de Era uma vez na América

4. Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone é um faroeste que foge aos padrões. Com um ritmo extremamente lento e intimista , esta obra-prima ainda conta com a melancolia da trilha sonora de Ennio Morricone. A história em si é simples e banal. Porém, Leone readaptou a estética dos faroestes , transformando Era uma vez no Oeste em um filme intimista , reflexivo e artístico. O filme abusa dos primeiros planos e mergulha na melancolia da dureza da vida e da impossibilidade amorosa.

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Cena de Era uma vez no Oeste. Claudia Cardinale vive uma ex-prostituta que não mede esforços para sobreviver

5. Táxi driver , de Martin Scorsese mergulha na noite de Nova Iorque e nas obscuridades da mente de um veterano da Guerra do Vietnã que arranja um emprego como taxista e prefere dirigir à noite pois sofre de insônia. Um tipo desajustado e valoroso ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista. Para a sociedade , ele se torna um herói ao resgatar uma prostituta mirim. Mas por outro lado, podemos perceber nitidamente que ele carrega a destruição dentro de si. O filme analisa os tênues e delicados limites entre ser um herói e um neurótico de guerra.

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Cena de Táxi driver

O cinema e a arte de um modo geral sempre trabalharam com maestria sobre o caráter multifacetado da violência, incluindo a emocional e revelando que existe beleza no sórdido e no grotesco.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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