cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Ser passional: um dos maiores tabus sociais

A passionalidade tem grande poder e efeito dramático e artístico, mas na vida real ela assusta. Mais do que isso. Pessoas passionais são um grande tabu social. Elas são um delicioso alvo para preconceitos variados. Muitos racionais se sentem no direito de tripudiar sobre os passionais porque socialmente falando a culpa é sempre do passional. O passional é sempre o doentio, o patológico. É sempre aquele que possui uma fala que deve ser menos considerada.


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A passionalidade é uma traço psicológico muito apreciado quando lemos um livro, assistimos a um filme ou peça teatral. Gostamos de ver pessoas explodindo nas telas do cinema e nas telas do PC, aconchegados debaixo do nosso edredom, petiscando uma bobagem qualquer e nos sentindo protegidos de ataques emocionais que beiram o ridículo.

Choramos e nos emocionamos e nos empolgamos quando lemos livros intensos, sentados confortavelmente numa poltrona macia. Depois de sentirmos o nosso coração tumultuado pelas turbulências alheias, podemos tranquilamente tomar uma boa sopa quentinha ou uma fatia de pizza esquentada às pressas no micro-ondas. Tudo regado a Coca-Cola e muita serenidade.

Gostamos de ver pessoas dizendo e fazendo coisas impensadas. Gostamos de ver as pessoas falando verdades duras na cara dos outros. Gostamos de ver uma boa briga de rua. Gostamos de ver atores gritando e vibrando pelos palcos da cidade. Gostamos de ver cenas com tapas na cara, bofetadas , cusparadas, olhos chispando, peitos arquejando que desembocam num beijo na boca.

Gostamos de ver os personagens morrendo de amor, suplicando o olhar do outro de joelhos, lágrimas nos olhos e na alma. Gostamos de ver mulheres rolando pelo chão, dando defeito, puxando cabelo , chamando a outra por nomes obscenos.

Mas quando chega o momento de nós sermos personagem de uma cena passional, nos assustamos violentamente. Nos sentimos mal, incomodados. Quando vomitam as verdades na nossa cara sem dó nem piedade , sofremos brutalmente. Quando nos acuam, nos constrangem, nos obrigam a dizer e a confessar o que não queremos , quando nos levam à loucura e ao desespero, percebemos que pirar não é tão gostoso assim.

A passionalidade tem grande poder e efeito dramático e artístico, mas na vida real ela assusta. Mais do que isso. Pessoas passionais são um grande tabu social. Elas são um delicioso alvo para preconceitos variados. Muitos racionais se sentem no direito de tripudiar sobre os passionais porque socialmente falando a culpa é sempre do passional. O passional é sempre o doentio, o patológico. É sempre aquele que possui uma fala que deve ser menos considerada.

O passional é julgado e rotulado sem constrangimentos pois ele é uma nódoa de gordura em uma roupa nova. Ele é uma mancha de molho de tomate num vestido branco. Ele é o vinho derramado sobre uma toalha limpa. Podemos passar um pano molhado sobre a mancha, cheios de vigor e donos da verdade, pois aquilo que esfregamos é somente uma mancha, um ruído que deve ser extirpado para que todos vivam em paz, inconscientes de seus próprios defeitos e limitações. Negando suas próprias fragilidades e temores. O passional é uma espécie de bode expiatório dos racionais, onde projetam a sua própria passionalidade reprimida.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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