cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre a arte e a luta pela sobrevivência diária

A arte como a filosofia nos remetem à beleza da dúvida, nos revelam as possibilidades múltiplas dos sentimentos. Porém, a arte , talvez, tenha uma vantagem em relação à filosofia. Como diria o filósofo argentino Julio Cabrera, a filosofia é racional demais. Embora Schopenhauer tenha incluído a afetividade na filosofia , a razão sempre prevalece no exercício filosófico enquanto que a relação razão/emoção na arte é muito mais intricada. A arte ( Cabrera analisa mais especificamente o cinema) tem o poder de mexer simultaneamente com nossa razão e emoções. A arte é um exercício da nossa inteligência sem perder de vista a afetividade. A arte fala aos sentidos também.


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Nietzsche

O filósofo alemão Nietzsche escreveu frases bastante poéticas. Uma que me interessa especialmente é a seguinte: "Temos a arte para não morrer da verdade".

Um pensamento meio triste e desesperador. Concordo. Mas ao mesmo tempo, poético e lindo. Em uma sociedade fast food como a nossa, em que um modo de viver parvo é valorizado, a arte parece ser uma das poucas saídas para quem consegue ver além do óbvio.

O psicanalista Christian Dunker, durante uma palestra, fez um comentário bastante jocoso sobre os normalpatas. Normalpata é toda pessoa que se adequa totalmente à sociedade. É toda pessoa que passa pela vida sem nenhum tipo de drama ou desencontro. Eu complementaria o pensamento de Dunker dizendo que são aqueles que vivem na superfície das emoções.

Para Dunker a vida de um normalpata deve ser bem chata. Concordo e vou além. Conviver com um normalpata deve deixar qualquer pessoa mais sensível adoecida.

Sim, num mundo de frases prontas, de lugares comuns, de clichês, de conselhos estilo autoajuda, de pessoas incapazes de perceber ou de admitir a crueza da vida , a arte tem o papel vital de manter a nossa insanidade em equilíbrio.

A arte como a filosofia nos remete à beleza da dúvida, nos revela as possibilidades múltiplas dos sentimentos. Porém, a arte , talvez, tenha uma vantagem em relação à filosofia. Como diria o filósofo argentino Julio Cabrera, a filosofia é racional demais. Embora Schopenhauer tenha incluído a afetividade na filosofia , a razão sempre prevalece no exercício filosófico enquanto que a relação razão/emoção na arte é muito mais intricada. A arte ( Cabrera analisa mais especificamente o cinema) tem o poder de mexer simultaneamente com nossa razão e emoções. A arte é um exercício da nossa inteligência sem perder de vista a afetividade. A arte fala aos sentidos também.

Diferentemente do olhar do senso comum, a arte não é necessariamente bela. Mais do que isso. A arte não é apaziguadora. A arte não serve para nos deixar mais calmos ou mais confortáveis com a nossa miséria. A arte não é Rivotril. A arte não é livro de autoajuda. A arte não é religião. A arte não tenta nos convencer de que tudo vai melhorar. A arte não nos trata como crianças ingênuas e bobinhas. A arte não faz promessas vazias. A arte não é placebo.

A arte é a faceta mais encantadora da nossa própria condição desesperadora. A arte é o lado fascinante da miséria humana. A arte , talvez, seja a única coisa que faça o nosso sofrimento valer a pena, ter algum sentido, alguma razão de ser. Mas a arte não busca sentidos nem porquês. A arte é o que é. A sua simples magnitude ressignifica tudo.

Bem, não sei se foi isso que Nietzsche quis dizer com sua cortante frase. Mas sempre que me deparo com ela , não consigo fugir de tais pensamentos.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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