cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Um estranho no ninho: uma miniatura da nossa sociedade asquerosa que nos convida ao constante medo

Não, Um estranho no ninho não envelheceu. Não caiu do galho. Continua sendo uma obra viva, vivaz e atual se partirmos do pressuposto de que a realidade descrita no hospital psiquiátrico pode ser vista como uma metáfora da nossa própria sociedade. Somos impelidos a renunciar à nossa liberdade e ao nosso direito de vivermos como bem desejamos. Somos estimulados a nos tornar pessoas medíocres , pasteurizadas, produtivas para um sistema injusto. Somos preparados para sermos hipócritas e covardes. Somos incentivados a abandonar o amor em nome de relacionamentos estáveis e convencionais que nem deveriam receber o nome de relacionamento, pois já nasceram mortos.


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Um estranho no ninho, célebre filme dirigido pelo tcheco Milos Forman em 1975 , foi baseado em um romance homônimo de 1962, escrito por Ken Kesey. Tanto o livro como o filme são considerados obras de contracultura.

Mas o que significa ser uma obra de contracultura? Significa ir contra à cultura dominante. Ir contra aquilo que é determinado pelas esferas do poder e assimilado pelas pessoas de um modo geral como valores imutáveis e inquestionáveis.

Pela visão do filósofo francês Michel Foucault , o poder se manifesta em rede. Isto é, quem impõe o poder também é vítima do mesmo. Enfim, ninguém escapa às agruras do poder , mesmo quando se tem uma posição relevante na sociedade. Vale destacar aqui que poder nem sempre é algo negativo. Como o próprio nome diz , ter poder é ser capaz de fazer as coisas acontecerem. É ter potência para gerar transformações, mesmo que apenas internamente. O termo poder no contexto deste artigo se refere às manipulações das esferas da sociedade que determinam o que é bom ou mau, certo ou errado, moral ou imoral de acordo com os seus interesses.

Para quem não viu o filme, o enredo é basicamente o seguinte : um tipo agressivo e desajustado socialmente é transferido da prisão para uma instituição psiquiátrica. Ele pensa que terá uma rotina mais mansa no hospício, mas na realidade ele viverá uma guerra homérica com a enfermeira chefe, uma mulher dominadora que faz de tudo para manter os pacientes cada vez mais passivos, inseguros e descrentes de seu próprio potencial. Randle, interpretado magistralmente por Jack Nicholson, tentará como Prometeu acorrentado levar o fogo da consciência para os internos, desafiando toda uma estrutura de poder.

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Semioticamente falando, podemos dizer que a enfermeira Ratched é o ícone do poder estabelecido, da autoridade que impede a liberdade e o crescimento pessoal dos internos. Randle, seria o ícone do caos criativo, da busca incessante por uma existência plena e verdadeira. E entre este fogo cruzado, encontram-se os internos, homens fragilizados e adestrados a não acreditarem neles mesmos.

O objetivo do livro e do filme era denunciar a cruel realidade das instituições psiquiátricas nos anos 1960 com seus tratamentos de choque e adestramentos. Então, seria Um estranho no ninho um filme que envelheceu já que muitas transformações importantes aconteceram no mundo da psiquiatria?

Não, Um estranho no ninho não envelheceu. Não caiu do galho. Continua sendo uma obra viva, vivaz e atual se partirmos do pressuposto de que a realidade descrita no hospital psiquiátrico pode ser vista como uma metáfora da nossa própria sociedade. Somos impelidos a renunciar à nossa liberdade e ao nosso direito de vivermos como bem desejamos. Somos estimulados a nos tornar pessoas medíocres , pasteurizadas, produtivas para um sistema injusto. Somos preparados para sermos hipócritas e covardes. Somos incentivados a abandonar o amor em nome de relacionamentos estáveis e convencionais que nem deveriam receber o nome de relacionamento, pois já nasceram mortos.

Em nome da manutenção da ordem social, somos convidados a nos despedir de nós mesmos, pois lidar com pessoas submissas e que nada questionam é muito mais simples e prático. Personalidades marcantes e fora do padrão como Randle incomodam muito, pois faz todos perceberem que suas vidas estão apequenadas , sem brilho, sem sentido.

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Um estranho no ninho é um filme altamente duro e pungente. Mas é uma obra essencial para aqueles que não conseguem se enganar mais nem se contentam em viver de acordo com as rígidas regras do status quo. Enfim, é um filme para libertários.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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