cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Presença de Anita: um mergulho no mais assustador do erótico

Para Anita tudo é um jogo , tudo é sedução, tudo é manipulável. A música francesa traz à tona a dramaticidade das consequências destes mesmos jogos que não são jogados impunemente. O fogo queima a casinha nos dois sentidos: destrói a família , mas também a purifica para coisas novas. Lúcia Helena depois de passar por maus bocados por causa da ninfeta e do próprio marido que a ama de forma desinteressada e desinteressante , se abre para novas possibilidades no final da trama quando conversa com uma cigana. O cenário é a praça da sua cidadezinha , que é um espaço aberto e simbolicamente falando nos remete à novas possibilidades, diferentemente das cenas fechadas no quarto de Anita que transmitem uma ideia de destino inflexível.


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“Não existem coincidências. Tudo está escrito” (Fala de Anita para Nando)

Presença de Anita é uma série produzida pela Globo no ano de 2001. Foi livremente e vagamente inspirada no romance de Mário Donato e adaptada para a TV por Manoel Carlos.

Para a sensualíssima ninfeta Anita nada acontecia por acaso. Tudo era destino. Tudo estava escrito. Disse isso ao desiludido Nando , vivido por José Mayer, em seu quarto, no primeiro encontro dos dois , entre um grande espelho e a cama de casal. Muitas cenas de Presença de Anita ocorrem na casa da protagonista , mais especificamente no quarto. Um cômodo amplo, a cama no centro, uma luminosidade quase sobrenatural, uma sacadinha para o mundo externo, por onde é observada por Zezinho, interpretado por Leonardo Miggiorin, um adolescente tímido e apaixonado por Anita.

O quarto grande nos remete a ideia de que a intimidade ocupa um lugar importante na vida da protagonista que passa boa parte de seu tempo nele , vestindo trajes menores. A cama no centro pode simbolizar o erotismo como o principal da sua vida. Tudo gira em torno de seu corpo ardente de menina moça , mais mulher que muita mulher feita. O espelho grande sugere um certo narcisismo. Ela se acha linda e realmente é. De certa forma todos se apaixonam por Anita , que às vezes , se intitula Cíntia , mas continua tão encantadora quanto Anita. A luminosidade sobrenatural nos faz lembrar que a protagonista traz em si o mistério. A sacada que permite a observação de Zezinho e Antonio, dono da mercearia que fornece mantimentos para Anita , interpretado por Walter Breda, abre uma porta para a questão do voyeurismo, altamente explorado nesta série.

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A rotina da forasteira se torna uma novela picante na monótona cidade fictícia de Florença , situada no interior do estado de São Paulo. Como uma verdadeira estrela , Anita se deixa observar cheia de bom humor e prazer. Dança diante da janela aberta , faz gestos sensuais , sorri e, de manhã , conversa com Antonio e Zezinho da sacada do quarto, vestindo roupas de dormir , cigarro na mão. Cada gesto de Anita transmite liberdade pura diante dos parâmetros sociais: rega seus vasinhos de gerânio de calcinha e camiseta , desce até a rua descalça , cabelos molhados e roupão de banho. Inclusive , numa cena , em que Nando furioso com Anita persegue a moça com a cinta na mão, ao ver que é observado pelos vizinhos da frente , sorri e diz que ambos estão ensaiando uma peça de teatro. O contexto de Anita é tão caricato que a desculpa esfarrapada de Nando quase se encaixa. Ao fundo, uma alegre música francesa. Música de cabaré. Anita corre apenas de calcinha. Instantes antes , Nando tira sua blusa no meio da briga. Os gestos parecem coreografados: uma verdadeira dança erótica. Logo depois , fumam deitados na cama. Sintonia pura. As tragadas são ritmadas. Tragam e expiram simultaneamente como verdadeiros amantes em plena sincronia. Ao som de Ne me que te pás , Nando despe a calcinha de Anita . Vemos os dois pelo espelho. Pelo mesmo espelho que flagrou um crime passional naquele mesmo quarto. Mais uma tragédia se encaminha.

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Outra janela que se mantém aberta e acessível aos olhos de observadores é a de André , interpretado por Taiguara Nazareth, trabalhador da casa de Marta , personagem vivida por Vera Holtz , cunhada mais velha de Nando. Viúva , ela se delicia observando os empregados da casa na intimidade do quarto.

O erotismo em Presença de Anita se faz notar nos menores detalhes. Em uma determinada cena, a protagonista briga com Nando porque este lhe prometeu uma viagem, mas por motivos familiares precisou cancelá-la na última hora. Anita diz que já havia feito a mala, colocado a melhor lingerie , perfumado tudo. Para ela , a sexualidade tinha que ser vivida como um ritual. Entre rendas , perfumes , diante do espelho, a bailarina espanhola a observá-los. Anita dizia que quando morresse , irá reencarnar em Conchita , uma escultura em forma de bailarina espanhola. A boneca vive na mesa de cabeceira da moça , prenúncio da paixão e das suas consequências.

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Outros elementos da série prenunciam a tragédia. Na primeira cena , Lúcia e Luísa , esposa e filha de Nando, interpretadas respectivamente por Helena Ranaldi e Júlia Almeida, presenciam um assalto. O tema da violência urbana é trazido à tona. Posteriormente , o espectador irá se deparar com outro tipo de violência : a emocional. A que Nando impõe a Lúcia e a que Anita impõe a Nando. Conheceremos também a violência dos desejos tempestuosos por meio dos olhos de Marta que observa as cenas eróticas entre Neusa (Joana Tristão) e André. Transpirando e sem fôlego, corre para debaixo do chuveiro. A água refresca a pele , não o seu desejo.

Já na abertura da série , ao som de Ne me que te pás, na voz de Maísa, podemos ver Anita escrevendo seu nome num vidro embaçado . O gesto parece infantil e sem importância. No entanto, já revela que ela se impõe , deixa suas marcas , imprime seu nome na vida das pessoas. Troca de lugar os pequenos móveis de uma casa de bonecas. O olhar de menina , o gesto de manipular brinquedos , revela quão grande é o poder desta adolescente para revirar o lar das pessoas ao seu bel prazer e de forma encantadora.

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Para Anita tudo é um jogo , tudo é sedução, tudo é manipulável. A música francesa traz à tona a dramaticidade das consequências destes mesmos jogos que não são jogados impunemente. O fogo queima a casinha nos dois sentidos: destrói a família , mas também a purifica para coisas novas. Lúcia Helena depois de passar por maus bocados por causa da ninfeta e do próprio marido que a ama de forma desinteressada e desinteressante , se abre para novas possibilidades no final da trama quando conversa com uma cigana. O cenário é a praça da sua cidadezinha , que é um espaço aberto e simbolicamente falando nos remete à novas possibilidades, diferentemente das cenas fechadas no quarto de Anita que transmitem uma ideia de destino inflexível.

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A série toda é marcada por músicas francesas que imprimem à história naturalmente melancólica e erótica um clima ainda mais sombrio e sensual. Se para Anita tudo é destino e nada acontece por acaso, a trama apresenta diversos elementos que confirmam a crença da moça. Antes de conhecê-la , Nando, entediado com a vida e com o casamento, esboça o corpo nu de uma mocinha sem rosto. Atrás dele , um enorme quadro vermelho. Nando quer se apaixonar. Depois de conhecer Anita , aparentemente por acaso, dá ao corpo decapitado, o rosto da ninfeta. O rosto de Anita era o que ele esperava encontrar. Embora a jovem vá ao encontro dos seus desejos , Nando se assusta diante da possibilidade de se apaixonar verdadeiramente. Maltrata a garota , a ofende , a proíbe de se relacionar com sua filha , mas logo em seguida se rende a ela, para depois magoá-la e ofendê-la novamente. Anita acredita firmemente no destino, no seu destino com Nando.

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No momento em que o carro de Nando capota na estrada , Anita acende um cigarro com o isqueiro dele esquecido em sua casa. É por causa também do isqueiro que ele volta. Um objeto usado para acender cigarros , é o detonador da paixão. Ele detona também as tragédias . Fala a Nando sobre a paixão no exato momento em que a chama do isqueiro se acende. E depois de morta , um pouco antes de atrair Nando para a sua cama, acende velas que baterão na cortina e incendiarão a casa. O fogo detona primeiramente a paixão, depois , a tragédia. Inclusive , paixão e tragédia é o que Nando encontra nos braços de Anita.

No início da trama , em São Paulo, desiludido e desanimado, Lúcia imagina poder inspirar o marido com uma temporada no campo. Pensa que conseguirá resgatar a paixão perdida na tranquilidade da fazenda. No entanto, Nando redescobre realmente a paixão, só que com outra mulher. Uma mulher que o conduzirá à morte. Tal combinação é bastante aceitável se pensarmos em Eros e Thanatos , as pulsões de amor e de morte. Como a própria Anita sempre afirma , a morte é a coisa mais próxima e semelhante ao amor passional. Na cena em que Nando e Anita se conhecem , toca a música Ne me que te pás num ritmo mais alegre e animado. É o começo de tudo. É um começo leve , lúdico, feliz. Nando , chateado , encontra na presença divertida de Anita um pouco de alegria e prazer. Com o passar do tempo, as cores da tragédia aparecem pouco a pouco até explodir em sangue , fogo e fúria no final. Mas não é apenas o fogo que simboliza as paixões em Presença de Anita. A garota gosta de cozinhar e de comer. Se gaba por preparar um sanduíche de carne assada que é uma coisa como ela mesma diz. Nando come um sanduíche preparado por Anita com prazer. Ele que havia perdido o apetite pela vida , o redescobre primeiramente numa comida , logo em seguida , nos braços da moça. O ato sexual é precedido por uma dança da garota ao som de castanholas , outro elemento erótico dentro da trama , anúncio da paixão e da tragédia que a sucederá.

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Anita faz um bolo e o come ainda quente. Diz a Zezinho que o bom mesmo é o comer enquanto sai fumaça. Ela fala do doce e o come com uma sensualidade extrema. Pergunta a Zezinho se ele já comeu coisa mais gostosa e depois que o garoto responde que não , ela sorri maliciosa , dizendo: “Nem a sua namoradinha?” Anita compara uma comida a uma mulher , reafirmando desta forma , o paralelo existente entre o prazer de comer e de fazer sexo. Depois de fazer e comer um pedaço sensualmente e dar uma fatia a Zezinho, ela beija o rapaz e coloca a mão dele em seu seio. A textura do bolo e do seio são comparadas como duas coisas suaves , saborosas e eróticas.

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Num momento de raiva , na biblioteca da casa de Lúcia Helena , Nando diz a Anita que sente nojo dela. A afirmação saiu depois de uma série de provocações feitas pela ninfeta que invadiu seu escritório vestindo apenas um biquíni e seduzindo Nando com propostas indecentes. Queria passar uma noite inteira com ele na cama de sua esposa. Antes disso, na piscina, fez gestos sensuais ao ajeitar o biquíni, sacudir os cabelos molhados que chamaram não só a atenção de Nando, mas a de todos. Os movimentos foram apresentados em slow motion para acentuar o efeito impregnante da ninfeta que tinha o poder de desconcertar as pessoas com sua extrema sensualidade. É quase um efeito hipnótico, tanto para Nando como para o espectador. Anita olha Nando fixamente, a cobrança de que ambos estão para sempre ligados. Ligados pelo desejo, pela paixão e pela tragédia. Quando Nando, por brincadeira , joga Lúcia Helena na piscina e vê Anita submergindo, se assusta. Logo depois , a esposa vem à tona , sorridente , atrás de Anita. Por mais que Nando deprecie a ninfeta , é a esposa que ocupa o segundo plano em sua vida. Anita fica no proscênio, protagonista das cenas mais importantes de Nando, personagem principal do seu romance.

Uma série perturbadora, passional e em alguns momentos , assustadora.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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