cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

45 anos e Respire: dois filmes sobre a fragilidade das relações humanas

45 anos é um filme muito mais sutil e trabalha com personagens centrados, pelo menos aparentemente. Respire mergulha no universo adolescente e trabalha com dramas e conflitos muito mais ruidosos. Mas em ambas as obras, uma situação tranquila ( 45 anos) e outra feliz ( Respire) desmoronam, deixando a personagem protagonista sem ação ou com uma ação desgovernada.


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Cena do filme Respire

Como todos os meus artigos sobre cinema, este apresenta milhões de spoilers. 45 anos , filme britânico de 2015 e Respire, filme francês de 2014, num primeiro momento não apresentam nada em comum.

45 anos mostra a pacata rotina de um casal bem comportado, que vai comemorar 45 anos de casamento, ser balançada por uma revelação antiga. Respire mostra uma amizade eufórica degringolando para uma relação obsessiva de amor e ódio.

45 anos é um filme muito mais sutil e trabalha com personagens centrados, pelo menos aparentemente. Respire mergulha no universo adolescente e trabalha com dramas e conflitos muito mais ruidosos. Mas em ambas as obras, uma situação tranquila ( 45 anos) e outra feliz ( Respire) desmoronam, deixando a personagem protagonista sem ação ou com uma ação desgovernada.

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45 anos: a certeza de uma vida bem vivida

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45 anos: o peso da dúvida contaminando todo um passado

45 anos começa tranquilamente , quase banal e monótono. Na segunda metade , mergulhamos no drama de Kate, vivida por Charlote Rampling. Depois de entrar em contato com uma revelação , Kate remexe em objetos pessoais do passado do marido, incluindo slides e descobre que todo o seu casamento foi uma espécie de step na vida do seu esposo. Mas vale ressaltar que tal percepção é da personagem e o espectador tem elementos para discordar de tal ponto de vista. Eu particularmente concordo. Fecho com Kate. Mas de qualquer forma , independente do ponto de vista de cada um, o filme não é fechado, o que o torna muito interessante. A sua segunda intrigante metade compensa a monotonia da primeira parte, antes da vida de Kate ser invadida por um tsunami emocional.

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Charlote Rampling vive o peso de um drama aparentemente sutil em 45 anos

Já em Respire, a tese de que se um não quer , dois não brigam é confirmada. A eufórica amizade entre uma garota meiga e comum com uma outra popular vira um verdadeiro caos quando a comum descobre que a vida da popular é um desastre. Charlie tenta dar apoio moral à amiga quando descobre que esta é filha de uma mulher alcoólatra, mas Sarah não aceita ser consolada e ainda por cima adquire um ódio insuportável de Charlie, transformando a vida da garota num verdadeiro inferno.

Até este ponto , nada demais. Muitas pessoas se ressentem quando descobrem suas fragilidades. O mais intrigante da situação é que Charlie não consegue reagir às agressões de Sarah e começa a afundar num lamaçal depressivo, recusando a ajuda de seus amigos verdadeiros. Enfim, ela hostiliza quem a trata bem e mantém um amor dolorido por quem a deprecia e a inveja brutalmente.

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Respire nos faz pensar que não existe relação doentia sem o consentimento das duas partes. Se Charlie não teve culpa das agressões sofridas, ela teve ao aceitar ser subjugada. Ela se coloca numa irritante posição de vítima , como se merecesse o sofrimento infligido por uma garota absurdamente doentia. Mas lá no fundo, Charlie também é doente pois não consegue se desenredar de um jogo grotesco. Elas vivem um perverso jogo de sadomasoquismo, em que as duas se invejam. Sarah quer a vida equilibrada de Charlie e Charlie quer a vida agitada de Sarah. Ambas na verdade se autodepreciam, mas reagem a este sentimento de inferioridade de maneiras opostas. As motivações são similares, mas os sintomas diferentes.

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Mas o mais importante que une estas duas obras é perceber o quanto as relações humanas são frágeis e passíveis de rupturas abruptas. Kate continuou casada apesar da revolução ocorrida em sua cabeça, mas a relação de ambos nunca mais seria a mesma se fosse verdade. Respire apresenta um desfecho trágico e mesmo que o final fosse mais ameno, provavelmente Charlie também não seria a mesma.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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