cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A bela da tarde: as múltiplas possibilidades do desejo

A bela da tarde é aparentemente um filme comum. Mas provavelmente é uma das obras mais complexas de Buñuel, que utilizou uma estética interessantíssima para dissecar e criticar a instituição do casamento e a monotonia da rotina burguesa.


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Intrigante filme do cineasta espanhol Luis Buñuel, A bela da tarde mergulha no lado B das relações conjugais e submerge nas profundezas desconhecidas do desejo, por meio de uma aristocrática e aparentemente frígida dona de casa burguesa , interpretada pela belíssima Catherine Deneuve.

Casada com um médico jovem, atraente e próspero financeiramente , que a trata com muito carinho, Séverine se compraz sexualmente com homens rudes e desconhecidos num bordel que frequenta durante as tardes.

Ela tem certeza do seu amor pelo marido, mas não consegue entregar-se sexualmente a ele e quanto mais se relaciona com outros homens, mais sente amá-lo. A personagem dissocia completamente sexo de amor.

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A bela da tarde é aparentemente um filme comum. Mas provavelmente é uma das obras mais complexas de Buñuel, que utilizou uma estética interessantíssima para dissecar e criticar a instituição do casamento e a monotonia da rotina burguesa.

O filme pode ser lido em sentidos opostos. Já que o cineasta surrealista não diferenciava sonho e vida real com técnicas cinematográficas por considerar o sonho e a lembrança tão reais quanto a vida cotidiana, A bela da tarde pode ser visto como uma dona de casa que passa as tardes num bordel ou como uma dona de casa que se imagina num bordel ou ainda como uma prostituta que sonha em ser uma dona de casa burguesa.

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Analisando a obra de Buñuel, a hipótese menos provável é a da prostituta que se imagina uma dona de casa já que seus personagens caminham sempre na direção da transgressão a fim de criticar a rigidez e o automatismo das instituições sociais. A bela da tarde fala sobre o irracional, sobre o inexplicável, sobre o passional, de uma forma sóbria. Este era o estilo de Buñuel. Falar do irracional com racionalidade. Falar do inexplicável de forma intelectual. Falar do passional com sobriedade.

Buñuel ficou conhecido como um cineasta surrealista e ele realmente foi. Mas acima de tudo, Buñuel foi um iconoclasta, alguém que utilizou o surrealismo como meio e não como fim. O surrealismo foi a sua ferramenta para criticar e desnudar uma sociedade cruel, injusta, hipócrita, que nega o próprio desejo e aquilo que não pode entender. Uma sociedade que automatiza a fé e que mecaniza o trabalho.

Provavelmente, além de Séverine, o personagem mais intrigante do filme é Henri Husson, interpretado por Michel Picolli. Grande amigo do marido da protagonista, ele se sente seduzido por Séverine enquanto pensa que ela é inocente. Porém, foi ele quem passou o endereço do bordel para a mesma. Fica a dúvida: até que ponto, ele não previu na protagonista o seu potencial para o sexo brutal? Esta pergunta não é respondida, como muitas outras não são. Os filmes de Buñuel não objetivavam responder perguntas e sim propô-las.

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Um aspecto estético intrigante de A bela da tarde é o corte seco que podemos presenciar quando Séverine imagina-se humilhada pelo marido e o amigo dele. Amarrada em uma árvore , jogam pás de lama em seu vestido branco e em seu rosto. O plano é mudado sem alterar a posição da câmera. Vemos um “pulo” na imagem que dá a sensação de uma montagem precária. Possivelmente , Buñuel utilizou este recurso ou falta de para sacudir o espectador e dizer que aquilo era um filme e não a vida real: uma metáfora entre a relação espectador/cinema com os sonhos e a vida real de Séverine.

A bela da tarde é acima de tudo um filme sobre os imprevisíveis mecanismos do desejo, à nossa rica e intricada vida onírica e a tudo aquilo que jamais poderemos explicar ou entender.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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