cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

A omissão nossa de cada dia

Zelar pela verdade e lutar por justiça não são o forte das instituições. Uma dezena de homens mascarados se chafurdando sobre ela causaram menos danos do que a frieza do pai em relação ao seu sofrimento.


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Cena do filme A filha do general

O filósofo Luiz Felipe Pondé Pondé analisou o filme Spotlight e falou sobre a leniência moral de nossa sociedade. Lembrei-me do filme A filha do general que vi há séculos e pensei em toda a nossa letargia diante das injustiças.

Pondé fala amargamente sobre a tendência institucional e social de jogarmos escândalos e abusos para debaixo do tapete. O filme A filha do general mostra um linda e inteligente militar , filha do general, despertando a inveja em um meio altamente masculino. Uma moça loira e de rosto meigo era mais competente do que muitos homens barbados. A moça de rosto suave tinha uma carreira mais promissora do que muitos machos alfa. E ser mais competente e inteligente é a ofensa mais grave que uma mulher pode fazer a um homem.

A filha do general é currada por um grupo de militares mascarados. Fato suficiente para destruir completamente qualquer pessoa , independente do gênero. Mas não. A brutalidade extrema cometida pelos colegas não foi suficiente para destruí-la. O que realmente a levou a nocaute foi a reação do pai diante do horror que fizeram com ela. O general achou mais prudente abafar o caso, tentando desta forma preservar a própria carreira e a da filha.

Zelar pela verdade e lutar por justiça não são o forte das instituições. Uma dezena de homens mascarados se chafurdando sobre ela causaram menos danos do que a frieza do pai em relação ao seu sofrimento.

Precisamos parar de nos omitir porque brigar dá trabalho, desgasta , estremece relações. Muitas vezes o que mais fere uma pessoa não é a violência ou a injustiça sofrida em si. Mas o pouco caso e a falta de interesse das pessoas amadas em relação à violência ou injustiça sofrida.

Quando uma pessoa é assaltada, machucada fisicamente e/ou emocionalmente, ela deseja ser compreendida e acolhida por aqueles que ela ama. Ela quer ver a indignação nos olhos de quem ela ama. Precisamos sentir que a nossa dor incomoda as pessoas que amamos. Precisamos sentir que somos importantes e amados. Desta maneira , fica muito mais simples superar qualquer trauma ou crise.

Minimizar a dor alheia e tentar convencer o outro de que ele está sofrendo à toa , por um motivo menor, só aumenta o desespero de quem passou por uma violência ou injustiça. E entenda-se aqui o termo violência tanto no âmbito físico quanto psicológico. Tem pessoas que torturam e violentam os outros sem derramar uma gota de sangue.

O simples fato de tentarmos ajudar e nos importar com as pessoas, faz com que elas se sintam muito mais fortes e preparadas para esquecerem suas dores ou transformá-las em algum aprendizado.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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