cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Lua de fel: quando o ódio e o amor são faces da mesma moeda

Mas o amor romântico é traiçoeiro pois tem data de validade e se o casal não consegue reciclá-lo em amor maduro, terno, companheiro, a amargura desponta no horizonte.


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Roman Polanski é um dos cineastas com mais senso de crueldade. Pessimista, brutal e niilista , seus filmes são um mergulho no submundo da alma humana, onde esgotos correm a céu aberto e toda pureza é castigada.

Mas talvez, em Lua de fel, ele tenha atingido o seu nível máximo de amargura diante das impossibilidades da vida. Deus da carnificina é um filme extremamente cínico e descrente, mas por outro lado, sem a carga trágica e o tom nefasto de Lua de fel.

Tudo começa com uma bela e delicada história de amor. Um homem e uma mulher descobrindo a si e ao outro por meio do amor. Ele , mais maduro e experiente, um americano aspirante a escritor enchendo-se de inspiração na cidade luz. Ela, uma jovem francesa linda , intensa e ingênua, servindo mesas para ganhar a vida , mas estudando dança para fazer uma carreira artística. São dois iludidos. São duas pessoas que acreditam na força de seus sonhos e no poder do encontro amoroso.

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No começo tudo é lindo e revelador e eles podem viver apenas de suas emoções no pequeno e aconchegante apartamento do quase escritor.

Mas o amor romântico é traiçoeiro pois tem data de validade e se o casal não consegue reciclá-lo em amor maduro, terno, companheiro, a amargura desponta no horizonte.

Dizem que o cínico de hoje foi o romântico de ontem. Lua de fel confirma esta tese. O entendimento de que toda aquela sintonia mágica nunca mais será vivida com ninguém, nem com ela mesma, torna a figura do escritor um homem hedonista e cínico ao extremo, capaz das mais loucas perversões.

Um jogo cruel de amor e ódio em que cada um tenta provar ao outro o quanto pode ferir. Talvez , o mais melancólico de toda situação é a estratégia usada por Mimi , interpretada por Emanuelle Seigner, para solidificar a relação de ambos. Muitas vezes destruímos quem amamos ou pensamos amar para mantê-lo por perto. Quando imaginamos que este alguém não terá mais forças para nos enganar , humilhar ou deixar, assumimos o controle da situação e ganhamos um falso sentimento de poder e amor por nós mesmos.

O contraponto dos protagonistas é um casal britânico bem comportado viajando para a Índia em busca de uma nova inspiração para a vida a dois.

Este casal será atropelado pelo personagens protagonistas que deixarão suas marcas em suas vidas, fazendo eles descobrirem potencialidades e obscuridades desconhecidas.

O próprio encontro dos dois casais durante um cruzeiro , isto é , durante uma viagem nos remete a ideia de viagem interior que os personagens realizam ao se relacionarem. As consequências do encontro acidental serão decisivas e irremediáveis para os quatro personagens que se transformarão e tomarão decisões a partir das relações estabelecidas.

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Os acontecimentos finais ocorrem na passagem para o ano novo. Talvez mais uma metáfora de uma vida nova. Talvez mais uma metáfora de que nada será como antes.

Em umas cenas finais , quando a festa de réveillon acontece e as duas personagens femininas centrais do filme dançam e se divertem num jogo perigoso, podemos ouvir uma música cantada por Gloria Gaynor : “ Never can say goodbye”, que confere à cena um clima nostálgico, de algo que já foi e que nada poderá trazer de volta.

Um filme extremante sensual e triste , em que se entregar à paixão pode ser o mais perigoso dos caminhos. Uma das lições que Lua de fel deixa é que ninguém é o mesmo depois de viver uma grande e avassaladora paixão. O preço a se pagar é comumente muito alto e devastador, mas mesmo assim, a maioria das pessoas sonha com este encontro brutal que transformará implacavelmente suas vidas. Mesmo assim, parece valer a pena todo sofrimento, para viver por meio do outro o mais essencial encontro com o nosso lado obscuro.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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