cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Sou Professora Doutora em Comunicação e Semiótica , escritora e psicanalista lacaniana. Idealizadora do curso de Pós-graduação em Cinema do Complexo FMU e indicada ao Prêmio Jabuti em 2013. Autora do blog Garota desbocada. Meu canal no You Tube é Sílvia Marques Garota desbocada.

Menina bonita: no amor verdadeiro nada é imoral

Não é possível voltar no tempo. Não é possível negar a experiência vivida e o amor sentido. As experiências e os amores, principalmente as experiências amorosas, deixam marcas na pele da alma e nem toda a boa vontade do mundo pode eliminar o que o amor transformou.


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O que você pensaria se alguém te dissesse que assistiu a um filme lindo sobre um homem por volta dos trinta anos que vive um romance com uma menina de onze?

Um dos grandes méritos do cineasta francês Louis Malle foi transformar em poesia o tabu, o imoral em belo e por mais desconcertantes que sejam suas tramas , existe sempre algo de muito suave e humano em seus personagens.

Menina bonita é e não é um filme sobre pedofilia. Menina bonita é acima de tudo um filme sobre o amor. Vou além. Mostra como o amor mais genuíno pode brotar em qualquer lugar como as flores silvestres.

Malle desenha um lado poético e nostálgico dos bordeis, mostrando as prostitutas como membros de uma grande família.

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Vale ressaltar a cena em que os protagonistas fazem uma viagem para casar juntamente com algumas prostitutas do bordel. A carroça atola na lama e a menina lindamente vestida de branco suja a sua vestimenta de noiva. Talvez, Malle desejou estabelecer uma metáfora visual entre a pureza da garota e a crueza da sua realidade. Sua inocência estava manchada , mas mesmo assim, ela sorri, se sente feliz e trabalha corajosamente para desatolar a carroça.

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Em algumas cenas no bordel, a personagem de Brooke Shields se veste e se comporta como uma pintura renascentista. Em suma, uma visão poética e artística da sua sexualidade vivenciada antes da hora.

Mas nem tudo é poesia neste filme visceral, que além do amor, trabalha com o tema das inevitáveis e irredutíveis consequências dos nossos atos.

Não é possível voltar no tempo. Não é possível negar a experiência vivida e o amor sentido. As experiências e os amores, principalmente as experiências amorosas, deixam marcas na pele da alma e nem toda a boa vontade do mundo pode eliminar o que o amor transformou.

Com uma atmosfera nostálgica e ludicamente erótica, Menina bonita é um retrato de como o amor engole a tudo e faz parecer pequeno tudo aquilo que fomos, vivemos e sentimos antes de experimentá-lo.

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Em uma visão mais moralista, poderíamos dizer que o personagem interpretado por Keith Carradine estragou a infância da personagem vivida por Brooke Shields. Em uma visão mais romântica, podemos dizer que devido às circunstâncias , a personagem de Brooke Shields descobriu o amor antes da hora e que tolice foi a mãe e o padrasto tentarem negar o que havia acontecido e forçá-la a uma infância que já havia passado.

Independente do olhar do espectador, é possível deparar-se com uma obra extremamente sensível sobre a necessidade do amor, a força das circunstâncias e a impossibilidade de resgatar o tempo perdido.

A transformação abrupta da menina em mulher que não consegue ser completamente nem uma coisa nem outra e se torna duas caricaturas pode nos remeter a ideia de que experiências imprevisíveis e brutais tem o poder de nos transformar de forma irremediável.


Sílvia Marques

Sou Professora Doutora em Comunicação e Semiótica , escritora e psicanalista lacaniana. Idealizadora do curso de Pós-graduação em Cinema do Complexo FMU e indicada ao Prêmio Jabuti em 2013. Autora do blog Garota desbocada. Meu canal no You Tube é Sílvia Marques Garota desbocada. .
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