cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Não se mova: um retrato fatalista da vida

O livro e o filme mostram como fatos que acontecem por acaso ou simplesmente fora de hora esmagam totalmente as pessoas, que ficam a mercê das circunstâncias. O grande vilão de "Não se mova" é a própria vida : circunstancial, inflexível e irônica. No final das contas, não existem vencedores na trama profunda , dura , realista de Mazzantini. Cada um à sua maneira é um perdedor pois em um triângulo amoroso todos se ferem.


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O cinema italiano é poderoso no que diz respeito a mexer com as emoções primárias, com aqueles sentimentos mais universais, que muitas vezes, nos "esquecemos" de sentir na correria do dia dia , que exige de nós pragmatismo e eficácia. Adaptado do belíssimo romance homônimo de Margaret Mazzantini ( esposa do diretor do filme , Sergio Castelitto) "Não se mova" , que pode ser entendido como Não parta , não vá embora, é um profundo e doloroso mergulho no mundo das renúncias, das escolhas negadas, daquilo que poderia ter sido e não foi.

Tanto o filme como o livro dissertam sobre o se. Sobre tudo o que escondemos dos outros e de nós mesmos. Sobre tudo aquilo que poderia ter sido e não foi. Sobre tudo aquilo que calamos na boca e revelamos nos olhos.

Médico rico e casado com bela e culta jornalista apaixona-se por uma infeliz, uma desgraçada, como se costuma dizer no cinema italiano. Uma mulher que a vida tratou de marcar com todos os tipos de tragédia, uma mulher que aprendeu desde cedo o seu lugar miserável no mundo.

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Se o filme tem o mérito da plasticidade das imagens , da trilha sonora e de atores que encarnaram bem a dor dos personagens, o livro tem a vantagem de aprofundar em questões de ordem psicológica e moral, como por exemplo, o tema do aborto. O livro apresenta uma linguagem fluida e de fácil intelecção. Mas ao mesmo tempo é uma leitura pesada pois coloca o dedo em feridas que muitas vezes preferimos ignorar por serem doloridas demais.

Provavelmente , quem descende ou pelo menos entende melhor a cultura italiana poderá desfrutar mais do romance, pois Mazzantini revela com extrema profundidade a maneira de sentir e de ver o mundo típica dos italianos, que normalmente são ligados à família, condenam o aborto, sofrem despudoradamente diante da paixão e possuem uma boa dose de fatalismo. A esposa do médico, em princípio, não deseja ter filhos pois não acredita neste mundo. Itália abre mão do direito de ser mãe pois o germe da perda já está infiltrado na sua corrente sanguínea.

Um elemento estético muito belo do filme são os sapatos vermelhos de Itália. Eles funcionam como uma espécie de índice do se. De tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.

O livro e o filme mostram como fatos que acontecem por acaso ou simplesmente fora de hora esmagam totalmente as pessoas, que ficam a mercê das circunstâncias. O grande vilão de "Não se mova" é a própria vida : circunstancial, inflexível e irônica. No final das contas, não existem vencedores na trama profunda , dura , realista de Mazzantini. Cada um à sua maneira é um perdedor pois em um triângulo amoroso todos se ferem.

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Um dos elementos mais lindos e poéticos do livro é o sofrimento calado da esposa do médico. Captamos pelas entrelinhas que ela sabe muito mais do que aparenta saber. Ela envelhece cedo. No início da casa do 50, ela já é uma mulher idosa porque o amor lhe foi negado, mesmo que socialmente falando, ela fosse casada.

A atuação de Penelope Cruz merece atenção especial. A atriz surge totalmente desglamourizada e talentosíssima na pele da infeliz e trágica Itália. Um livro e um filme densos, profundos, angustiantes e infelizmente muito realistas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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