cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Os sonhadores: nada é mais real do que a ilusão

Por meio da personagem de Michael Pitt, Matthew, o amigo americano do casal de irmãos, Isabelle vivida pela estonteante Eva Green faz amor e perde a virgindade simbolicamente com Théo, interpretado por Louis Garrel, pois é ele quem manipula a situação a fim de que os dois fiquem juntos. Michel Pitt é uma espécie de canal por onde fluem as pulsões de amor e morte de ambos.


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Assistir a Bertolucci é quase sempre o mesmo que levar uma bofetada no meio da cara. O sórdido se transforma em poesia e por mais que nos sintamos bem integrados a uma série de valores, nos deixamos seduzir por seu erotismo profundo e quase ingênuo. O sexo e o incesto em Bertolucci parecem soluções paliativas contra um mundo externo perigoso e terrível.

O amor passional entre os irmãos não é uma apologia ao incesto ou a qualquer outra coisa que contraria a moral. Me parece mais um sintoma do medo da vida, do medo do mundo. Como em "Último tango em Paris", quase toda a trama decorre em um apartamento, onde os personagens se entregam a jogos e fantasias alimentadas por referências cinematográficas.

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Personagens imitam cena de filme de Godard

Por meio do personagem de Michael Pitt , Matthew, o amigo americano do casal de irmãos, Isabelle vivida pela estonteante Eva Green faz amor e perde a virgindade simbolicamente com Théo, interpretado por Louis Garrel, pois é ele quem manipula a situação a fim de que os dois fiquem juntos. Michel Pitt é uma espécie de canal por onde fluem as pulsões de amor e morte de ambos.

Mas Matthew não é tão ingênuo quanto aparenta e percebe o jogo do qual faz parte e como um fantoche que se recusa a ser manipulado, tenta viver um amor convencional e autônomo com Isabelle, que apesar de provocante e culta, nada entende sobre os meandros de um namoro comum. Isabelle entende do mundo cinematográfico pois é uma sonhadora. A banal e comezinha vida real soa-lhe estranha. E mais uma vez, podemos aplicar o pensamento de Gilles Deleuze quando se referia ao cinema como objeto e não como representação. Para os irmãos, a vida real na verdade é a vida imaginada.

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A tentativa de libertação de Isabelle e Matthew não ficará sem resposta e é aí que as máscaras caem e o mais desesperador se revela. Isabelle ama a seu irmão e não pode mais esconder tal fato de ninguém, muito menos dela. O desfecho é impressionante e passível de muitas interpretações.

A trama acontece na efervescente Paris de 1968. O contexto histórico de Os sonhadores é muito mais do que um pano de fundo. Podemos encarar o contexto histórico como uma metáfora do próprio espírito revolucionário e transgressor que habitam o íntimo dos dois irmãos cinéfilos, que lutam contra uma realidade que eles não aceitam. O papel do contexto histórico é tão importante que Isabelle e Théo conhecem Matthew durante uma revolta na rua e no final do filme , os irmãos finalmente se descolam do amigo americano e canal do amor de ambos para se colocarem na linha de frente de uma revolta, onde tudo pode acontecer.

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Pode ser que os irmãos tenham optado por um desfecho camicase pois descobrem que na vida real não há lugar para eles. Pode ser também que tenham decidido lutar na linha de frente da vida, assumindo as consequências de uma escolha inusitada. O que fica realmente claro é que ocorre uma ruptura com Matthew e agora os sonhadores cortaram seu último vínculo com a realidade e estão por sua conta e risco.

Os sonhadores são cinéfilos, são dois transgressores ingênuos que pensam poder se refugiar da vida real por meio da imaginação, que pensam poder recriar o mundo por meio do cinema. Muito mais do que um filme sobre o amor, o desejo e a sexualidade, Os sonhadores é um lembrete de como são tênues os limites entre o sonho e a realidade, uma homenagem sensível e perturbadora aos amantes da sétima arte.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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